22/08/2008

O Barqueiro - Jogo de crianças

 

barqueiro_santa nostalgia

Jogo do  Barqueiro.

o Barqueiro era um jogo muito popular entre as crianças do meu tempo de escola primária. Era jogado no recreio mas exigia algum espaço pelo que de preferência era jogado no terreiro adjacente à escola.


Podiam participar várias crianças, quantas mais melhor. Duas delas, que seriam os porteiros da ponte, reuniam-se isoladamente do resto do grupo e combinavam entre si representar determinado elemento. Por exemplo, um representaria o trolha, o outro o pedreiro; um a rosa, o outro o cravo; um o Benfica, o outro o Porto; um o amarelo, o outro o vermelho; um a Espanha  o outro a França, e por aí fora. Era importante que fossem coisas com valores ou significados opostos mas semelhantes em termos de importância.

Uma vez feita esta combinação, colocavam-se os dois de mãos dadas, levantadas em arco, de frente um para o outro. O resto do grupo participante formava uma fila, uns atrás dos outros, com as mãos apoiadas nos ombros do companheiro da frente e dava uma volta tipo combóio, de modo a passar entre a ponte e os porteiros. Logo que ali passasse, os porteiros apanhavam o último elemento da fila rodeando-o com os braços e então, em voz baixa e junto ao seu ouvido, perguntavam-lha qual a preferência entre as duas coisas combinadas. A criança escolhia uma delas e então era mandada para trás do porteiro que a representava. A volta recomeçava e o procedimento era o mesmo até que todos os restantes participantes da fila (que desconheciam os elementos em jogo e os seus representantes) tivessem escolhido e sido encaminhados para trás da fila que entretanto se formava atrás de cada porteiro. Terminada esta fase, entre os dois porteiros era traçado um risco divisório e então ambos os grupos, com os elementos agarrados à cinta uns dos outros, começavam a puxar para trás de modo a obrigar o grupo adversário a transpôr o risco. Quando isso sucedia, tal grupo perdia.
Neste sentido, residia aqui a importância dos elementos escolhidos serem equilibrados, pois caso contrário era normal que um grupo ficasse maior que o outro e na fase final um grupo inferior perderia pela certa.

Um dos aspectos interessantes do jogo era a cantilena que lhe estava associada. A fila quando dava a volta, e antes de entrar na portaria ou ponte, devia cantar:

Ó barqueiro, ó barqueiro,
dá licença de passar,
tenho filhos pequeninos,
que não posso criar.

Então os porteiros cantavam:


Passarás, passarás,
Mas algum há-de ficar,
Se não for o da frente
Será o de lá de trás.

Nesta altura, apanhavam o último elemento da fila, conforme já explicado, recomeçando a cantilena e o processo.

Notas:
Este jogo nalgumas zonas do país é conhecido como "Bom Barqueiro" ou "Combóio".

Também a cantilena pode ser diferente nalguns versos, mas de grosso modo é muito semelhante, por exemplo:

-Ó senhor Barqueiro
deixe-me passar,
tenho filhos pequeninos
não os posso sustentar.

Passará, passará ,
mas algum deixará,
se não for a mãe da frente
é o filho lá de trás.

Na minha terra canta-se assim:

o barqueiro_musica_santa nostalgia

2 comentários:

  1. Na minha escola o jogo chamava-se "A Falua" e era assim a cantilena:
    que linda falua
    que lá vem lá vem
    é uma falua
    que vem de belém

    eu peço ao senhor barqueiro
    que me deixe passar
    tenho filhos pequeninos
    não os posso sustentar

    passará
    passará
    mas algum ficará
    se não for a mãe na frente
    é um filho lá atrás

    mb

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  2. Santa Nostalgia23/08/08, 18:10

    @mb
    De facto também conhecia essa versão da cantilena, mas ignorava que o jogo tivesse esse nome. Claro que nestas coisas "cada roca o seu fuso e cada terra o seu uso", daí que seja natural que existam diversas variantes.

    Volte sempre.
    Santa Nostalgia

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