20/09/2008

Coisas do antigamente - Sacos, sacas e cestas





































Hoje em dia, uma rotineira ida às compras, seja ao mini-mercado da aldeia, seja ao supermercado, seja ao que se convencionou chamar de "grande-superfície", implica trazer para casa uma boa quantidade de sacos de plástico. Para além dos estritamente necessários, é frequente a regra de se pedir à menina da caixa uma molhada adicional de sacos, "para utilizar em casa".

É certo, que numa onda de preocupações relacionadas com o ambiente, há já locais de venda que cobram por cada saco utilizado, "obrigando" assim  a um aproveitamento racional de sacos de compras anteriores. Outros locais, usam sacos de papel, com nítidos benefícios ambientais. Ambas as situações, infelizmente, são ainda muito raras.
Pessoalmente estou em crer que neste aspecto algumas coisas tendem a mudar, mas nunca mais será como noutros tempos. Senão vejamos: Actualmente as pessoas vão às compras de mãos a abanar, isto é, sem recipientes onde acondicionar as compras. Estas entrem no carrinho, saem do carrinho e passam pela caixa, depois entrem em sacas de plástico, de novo para o carrinho e deste para o carrão, isto é, o automóvel. Em casa saem directamente para a despensa.

Como contraponto, noutros tempos, as mulheres da aldeia, onde quer que fossem às compras (e estas nem eram frequentes nem abundantes) levavam consigo um saco, de pano, quase sempre, de nylon, ou mesmo uma cesta ou cabaz de vime ou verga. Havia mesmo quem levasse à cabeça uma giga, daquelas tradicionais, muito utilizadas nas aldeias.
Por outro lado, hoje em dia todos os produtos são vendidos devidamente embalados. Mesmo os que tradicionalmente o não são, como a fruta e os legumes, uma vez seleccionados e pesados são logo acondicionados em sacas de plástico. Por cada produto uma embalagem que há-de ir para o lixo.
Pelo contrário, também noutros tempos, eram poucas as coisas que se compravam embaladas. Quase tudo se adquiria a granel, fosse na mercearia, fosse na drogaria, peixaria, talho ou até mesmo na farmácia.
Recordo que durante muito tempo, ainda em criança, a ida semanal às compras à mercearia da aldeia, era executada por mim e por um irmão mais velho. Recordo, pois, muito bem, que tudo o que comprava era vendido a granel, pesado e acondicionado em sacos de papel, em vários tamanhos de acordo com o que se pretendia. Era assim com o arrroz, com a massa, o feijão, o açúcar, a farinha, as bolachas, a manteiga, o queijo, a marmelada, as azeitonas, o café, etç, etç. Até mesmo os produtos líquidos, como o vinho, o azeite e o petróleo eram vendidos de forma avulsa, pelo que tinha que se ir prevenido com garrafas ou garrafões. Mesmo o chouriço, conservado em grandes latas com azeite, era vendido a granel e embrulhado em papel vegetal. Os papeleiros eram assim grandes fornecedores das mercearias, com papel, sacos (chamávamos de cartuchos) e saquetas. Havia cartuchos para quantidades de 1/4 de quilo, meio-quilo, um quilo, dois, cinco, etç. Para coisas pequenas, principalmente para azeitonas e amendoins, era tradicional elaborar-se com uma quadrado de papel uma saqueta em cone, tipo o actual corneto, o gelado da Olá.

Como se vê, outros tempos, outras condições. Tudo funcionava bem. Hoje em dia estes procedimentos e estas formas de vender são impensáveis. É certo que hoje em dia há uma melhor conservação dos alimentos, mais cuidados de higiene e um apertado controlo de qualidade. O que é certo, é que a forma de fabricar, produzir, armazenar e vender os produtos, implica o frequente recurso a produtos adicionais como conservantes, anti-oxidantes e outras mixórdias terminadas em "antes". Claro está, com nítido prejuízo da saúde das pessoas.

É fácil concluir que noutros tempos as coisas produziam-se para consumo imediato, principalmente os produtos perecíveis. Hoje, os mesmos produtos são feitos para duraram mais tempo, nos armazéns e nas prateleiras e poderem ser manuseados por milhares de mãos nos locais de exposição e venda. Até neste aspecto as coisas mudaram, pois hoje toda a gente pega, mexe, volta a pousar, volta a pegar e por aí fora. No antigamente não: Havia uma coisa chamada balcão, que limitava o espaço entre quem vendia e quem comprava. As coisas eram pedidas pelo nome e pelas quantidades desejáveis. Só depois é que eram aviadas. Com este processo, comprava-se o que se queria ou, quase sempre, o que se podia. Hoje, pelo contrário, as pessoas compram o que precisam, é certo,  mas muitas vezes o que não precisam e o que não podem comprar. É o consumismo, o apelo da imagem e do marketing no seu melhor.

Com tudo isto, é fácil perceber que hoje em dia há situações que se valorizaram para bem do consumo e do consumidor, nem poderia ser o contrário, mas muitos dos hábitos e procedimentos do antigamente perderam-se de forma irremediável e com eles muitos aspectos e valores positivos. O caso das embalagens é apenas um deles. Os restantes, as pessoas que, como eu, viveram esse período e o actual, facilmente aquilatarão.
Como remate final, posso afiançar que nessa altura da minha meninice, as famílias quase não produziam lixo. O plástico estava a aparecer mas era muito raro. As roupas eram remendadas e aproveitadas até à exaustão, pelo menos as de criança. Eram frequentes os remendos com grandes pedaços de pano de outra cor, nomeadamente as quadras na zona do traseiro e também na zona dos joelhos e cotovelos, onde se verificava maior desgaste. O mesmo acontecia com o calçado. As roupas, o calçado, os livros e muitas outras coisas transmitiam-se dos mais velhos para os mais novos. Mesmo o papel de jornal era aproveitado para diversas situações. As ferramentas, utensílios de uso diário e equipamentos eram reparados vezes sem conta. A comida, quase sempre escassa, era aproveitada ao máximo. Os restos, poucos, eram consumidos pelos animais, cães, gatos, galinhas, porcos ou vacas. Na aldeia quase toda a gente tinha este leque zoológico.
Nada era supérfluo pelo que tudo era aproveitado. Hoje em dia, algumas estatísticas apontam para uma produção de 150 quilos por mês por família. É muito lixo, como se compreenderá. É certo que se fala em reciclar, nos eco-pontos e outras coisas interessantes mas são apenas uma tentativa de minimizar o problema da sociedade actual que é a produção excessiva e desregulada de lixo.
Outros tempos, outros usos e costumes. Uns para melhor, outros para pior. É sempre assim.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Os comentários estão sujeitos à prévia aprovação por parte do autor do blog.

Talvez queira rever: