10/09/2009

Tempo de vindimas

 

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Este delicioso texto referente às vindimas, bem como a magnífica ilustração, faz parte do inesquecível livro de leitura da terceira classe do meu tempo.

De facto, quem já teve oportunidade de viver e trabalhar nas vindimas, de norte a sul do país, sabe que assim é.

Hoje em dia as vindimas e a decorrente produção do vinho, têm uma forte componente de trabalho mecanizado, tanto na apanha da uva como no transporte, como em todo o restante processo, desde o esmagamento até à sua passagem para o armazenamento. Por conseguinte, a mão-de-obra humana e animal é cada vez menos preponderante.

Noutros tempos, porém, todo o processo era fundamentalmente manual pelo que o envolvimento de bandos de homens e mulheres resultava sempre em jornadas de alegria, tanto na apanha como na tradicional pisa.

Na minha aldeia produzia-se vinho verde, mas na variedade chamada "americano" ou "morangueiro". Outrora muito apreciado em tascas e tabernas, mesmo da zona do Porto e Gaia, mas, fora alguns nichos de mercado, era um vinho comercialmente pobre, pelo que era produzido principalmente para clientes mais ou menos locais e também para consumo do dia-a-dia. O tinto era agradável mas de baixo teor alcoólico pelo que não permitia engarrafamento longo. Já o branco, mais forte, permitia um engarrafamento mais longo, mas sempre arriscado. Para o fortalecimento do vinho, era habitual mistural uvas de castas características do vinho verde, bem mais encorpado.

Fora esta característica, todo o processo que englobava a vinha e a vindima, era em tudo semelhante às grandes regiões vinícolas, como o Alto Douro, Dão ou Alentejo ou até com a região do Vinho Verde, no Minho, tendo aqui muitas semelhanças.

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Ao contrário dos vinhos maduros, caracterizados por cepas ou vides de espécie baixa, o vinho verde, principalmente americano, era cultivado em altas latadas com estrutura de vigas de ferro e arame assente em esteios de granito ou mesmo em ramadas verticais. Contrariamente às vinhas tradicionais, estendidas por todo o terreno, o vinho verde na minha região era cultivado principalmente nas bordas e cômoros dos campos, sendo reservado o miolo a culturas de subsistências como o milho, batata, feijão e centeio. Por conseguinte, o cultivo e produção de vinho na minha aldeia, salvo raros exemplos, era uma actividade complementar de pequeno lavrador, proprietário ou caseiro (arrendatário).

As videiras cultivadas nas bordas dos campos, frequentemente eram estendidas pelas árvores, vulgarmente choupos, pelo que na hora de vindimar era necessário um escadote muito alto e exigia muita ginástica e, naturalmente, envolvia algum risco.

Em todo este contexto, os meus pais cultivavam bastante vinha, pelo que nesta altura do ano a vindima e preparação do vinho era um trabalho de canseiras, sacrifícios, de manhã bem cedo até altas horas da noite, mas sempre com alegria.

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- Característica latada de vinho "americano" da minha região

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- Ramada vertical com desenvolvimento através das árvores

Primeiramente a vindima propriamente dita, era realizada com as pessoas distribuídas ao longo das latadas e ramadas, com uma equipa apanhando as uvas mais baixas e outra equipa, munida de escadas e escadotes, apanhando nas partes altas. Usava-se uns cestos de verga ou vime, a que chamámos canistréis e depois de cheios eram vazados em gigas, também de verga, ou então, mais no tarde, em sacos plásticos, aproveitados das embalagens de adubos ou rações para o gado. Depois deste processo, porque os campos eram mais ou menos distantes dos povoados, era necessário fazer o transporte, quase sempre em carro de bóis (o meu pai teve uma junta de bóis amarelos durante vários anos) mas muitas vezes transportava-se as gigas à cabeça ou os sacos às costas. Trabalho muito duro, porque tinha que ser repetido várias vezes, por caminhos francos e quase sempre a subir, porque os campos, as leiras, as ribeiras e as várzeas, localizavam-se quase sempre nas zonas baixas da aldeia.

À noite, já com o lagar cheio, eu, o meu pai e os meus irmãos, despojados das calças, apenas em cuecas, saltávamos para o lagar para a pisa das uvas, tarefa que normalmente durava duas a quatro horas. O vinho tinto, exigia mais tempo. Com o avançar dos anos adquirimos uma esmagadeira manual, com um sistema de rodas dentadas accionadas por uma manivela e assim realizava-se um pré-esmagamento, pelo que a tarefa da pisa era facilitada.

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No final, depois de lavadas as pernas, estas eram esfregadas com álcool ou aguardente. Mas era certo que nos dias seguintes, a comichão nas pernas era desesperante.

De seguida, depois de fermentada a mistura, procedia-se ao vazamento do vinho para pipos de madeira de castanho ou carvalho. A parte sobrante, chamada bagaço, era transportada para a prensa, normalmente localizada ao lado do lagar. No caso dos meus pais, como a prensa era muito antiga e exigia muito esforço, pois era com um sistema de braço horizontal, com duas pontas, girando em torno de um eixo vertical roscado, o bagaço era transportado em carrinho de mão para a prensa do meu avõ, que já estava dotada com um mecanismo de cunhas ou linguetas, pelo que o movimento da alavanca era de vai-e-vem, exigindo menos esforço. Actualmente as prensas são quase todas hidráulicas, assegurando um trabalho eficaz quase sem esforço.

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- Uva "americana" tinto

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- Uva "americana" branco

A partir do bagaço era aproveitado muito vinho que era colocado nos pipos a decantar. O último vinho aproveitado, era designado de água-pé e que era servido no final das esfolhadas de milho ou nos magustos de S.Martinho.

Convém referir, que no processo de prensagem, o bagaço era revolvido várias vezes, para um aproveitamento máximo.

Quando o bagaço já estava quase seco, era arrancado às postas da presa e esfarelado em gigas, seguindo de seguida para os alambiques da região, para produzirem a famosa aguardente de bagaço americano. Esta aguardente é das mais apreciadas nas tascas da região. Recordo-me de ir várias vezes com o meu pai transportar o bagaço em carro de bóis ao alambique da aldeia vizinha. A aguardente produzida, era guardada em garrafões de cinco litros, de vidro, empalhados, por sua vez acondicionados vários anos na fria e escura adega ou casa-do-vinho, como era designada na minha região. Para consumo da casa, vazava-se em garrafas de um litro.

A aguardente, para além do tradicional "mata-bicho", tanto em jejum como depois das refeições, tinha utilidade em diversas situações: Servia para esfregar o rosto depois de barbeado, para bochechar a boca quando doía os dentes, para temperos, especialemnte de cabrito e coelho e servia também para vários remédios a aplicar no gado.

O bagaço, depois de extraída a aguardente, servia para estrumar os campos.

Depois de concluído todo este processo, lá mais para o final do ano, o ciclo do cultivo recomeçava com a época das podas e manutenção das latadas e ramadas. Mais tarde o tratamento com sulfato e monda dos rebentos chamados de "ladrões". Depois, pelo S. Tiago, quando já pinta o bago, já se adivinha nova vindima, lá para o final do Verão. É este o ciclo da vinha, da vindima e do vinho.

As vindimas, ainda hoje são transmitidas como uma imagem bucólica e alegre, mas na realidade, no meu tempo de criança, englobava tarefas muito duras e exigentes. Era um processo de várias etapas, todas elas comportando muito esforço. Mas, é claro, não havia trabalho do campo que não estivesse embuído de uma sã alegria. Essa alegria era manifestada essencialmente no dia-a-dia quando de forma gratificante se usufruía desses esforços e canseiras, nomeadamente às refeições e em dias festivos. O vinho sempre omnipresente. Em cada trago valorizava-se o esforço antes dispendido para o produzir a trazer até ali, à caneca, ao alcançe do copo e da boca.

2 comentários:

  1. Viva!
    Na minha terra, Pessegueiro do Vouga, também era como conta.
    Cumprimentos

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  2. O meu marido é de uma pequena aldeia do Concelho de Oliveira de Frades, Ribeiradio. E o processo que descreve foi o que ele realizou com os pais e os irmãos, durante muitos anos. Mesmo depois de já estar em Lisboa, pedia as férias nessa altura, para poder ajudar na vindima. Pena que o vinho americano, não possa ser comercializado. Aquela zona era farta nessas uvas.

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