08/04/2009

Páscoa - Tradições, usos e costumes

 

Estamos já à porta da Páscoa, seguramente a maior celebração do calendário da liturgia da religião católica, embora o Natal, pela sua natureza e tradição, seja vivido de uma forma mais abrangente, talvez porque na primeira esteja envolvida a Paixão e morte de Cristo e na segunda, o Seu nascimento.

Na realidade, numa perspectiva humana, a vida sempre esteve impregnada de festividade e de alegria. Pelo contrário, a morte, é em si própria uma fatalidade da génese humana, sempre associada a momentos de dor, de luto, de perca e tristeza, do desprendimento final e forçado das coisas terrenas. É certo que há culturas que encaram a morte de uma forma mais natural, em algumas situações até com alegria, mas mesmo na religião católica, onde se crê que a morte é apenas uma passagem para uma outra dimensão, espiritual, essa foi sempre uma realidade muito pouco compreendida e cultivada, mesmo à luz da Ressureição de Jesus Cristo.
Seja como for, a Páscoa é uma celebração que comporta em si mesma dois estádios de vivência antagónicos: A morte e o triunfo da vida sobre a mesma pelo que nela pervalece sobretudo a alegria.


Tal como o Natal, a celebração da Páscoa está repleta de tradições, desde as religiosas até às pagãs, bem como a inseparável culinária e gastronomia a ela associadas.
Na parte religiosa, toda a quadra é iniciada no Domingo de Ramos, uma semana antes da Páscoa, relembrando a entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém, entre aclamações num ambiente de júbilo e louvor, num simbolismo contraditório do que iría suceder nos dias precedentes. Quantos dos que O aplaudiram triunfalmente às portas de Jerusálem, nesse Domingo, dias depois O incriminaram e gritaram para ser crucificado, julgando-O ao níevl de um reles salteador e criminoso?

Na Quinta-Feira Santa, comemora-se a celebração da Última Ceia, de Cristo com os seus discípulos e toda a sua carga simbólica como instituição da Eucaristia. Depois a retirada para o Jardim das Oliveiras, o abandono dos discípulos na sua dolorosa vigília e a traição de Judas. De seguida o aprisionamento, o interrogatório, a negação de Pedro, o flagelo e a condenação de Jesus, culminando toda a carga dramática  com a Sua morte por crucifixão, ladeado por salteadores também condenados, depois de percorrido todo o doloroso caminho do Calvário.


Para além da celebração e vivência de todas estas etapas, muitas terras têm fortes tradições associadas, como seja a reza da Via Sacra, quer nas igrejas quer percorrendo os percursos chamados de calvários, ainda presentes em muitas freguesias.

Na minha aldeia o Calvário é constituído por 17 cruzeiros em granito, dispersos na berma da estrada num percurso de cerca de 1500 metros, desde a igreja matriz até a uma capela localizada numa parte alta da freguesia. Estes 17 cruzeiros (14 estações mais as três cruzes, simbolizando Cristo ladeado pelos salteadores), neste quadra são envoltos com um pano roxo, cor associada à Paixão.
Há terras onde estas faixas são colocadas, durante a Semana Santa, numa das janelas ou porta de cada casa,  sendo, depois da Ressureição, já no Domingo de Páscoa, substituídas por cruzes floridas.

São, de facto, muito diversas as tradições por este nosso país fora, variando de terra para terra.
Já no dia de Páscoa, ainda sobrevive a tradição da Visita Pascal, também conhecida por compasso.

Na minha aldeia, noutros tempos era apenas um compasso (uma cruz) a percorrer todos os lugares, mas na actualidade, ajustada à sua dimensão, são três os compassos saídos durante todo o dia. Claro que noutras terras mais populosas os compassos são em maior número.


Ainda quanto à minha aldeia, as entradas de casa, junto ao portão da rua, são pavimentadas com alecrim, verdura e flores, como sinal de que se pretende receber a vista da Cruz, grinaldada, simbolizando Cristo Ressuscitado.


Finalmente, há a tradição do Juiz da Cruz, no nosso caso, eleito quatro anos antes, durante a Missa de Dia de Reis. Para além de outras incumbências e encargos, o Juiz é o portador da Cruz e no dia seguinte, segunda-feira, organiza o chamado Jantar do Juiz da Cruz, que por acaso até é almoço. Os convidados são apenas homens casados. Noutros tempos, este banquete era oferecido na própria casa do Juiz, contribuindo os convidados com géneros alimentares, como arroz, açúcar, ovos, galinhas, etç, mas nos tempos actuais, para comodismo de todos, esse serviço é feito num restaurante da zona e a contribuição para ajuda das despesas é feita em dinheiro.


Pelo meio, há a salientar todo o leque de doçaria caseira, desde a regueifa doce, até ao pão-de-ló, doces de coco, doce de amêndoa, biscoitos, etc. Não podem faltar as amêndoas revestidas a açúcar e, claro, o bom espumante português.
Na minha família susbsiste ainda a tradição de, logo após a passagem do compasso, o que no caso sucede a meio da manhã, comer-se carne de porco caseira (orelheira e queixada), fumada e acompanhada de pão-de-ló e regada com espumante.

Recordo que, nos meus tempos de criança, os dias que antecediam a Páscoa eram dedicados quase exclusivamente à limpeza anual da casa e a cozinha transformava-se literalmente numa pastelaria, sendo, entre outras doçarias, confeccionada de modo artesanal a saborosa regueifa. Era uma delícia quando a mesma saía do forno a fumegar. Na minha tarefa de ajudante de minha mãe e minha tia, barrava com manteiga derretida as belas regueifas e polvilhava ligeiramente com açúcar granulado. Estas regueifas eram depois armazenadas em caixas de madeira, envoltas em brancos lençóis de linho, pelo que passado mais de um mês ainda se consumia regueifa com sabor a fresco.

A quem não desperta vivas memórias e nostalgias este tempo festivo da Páscoa?

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