20/07/2009

Férias grandes

 

ferias grandes santa nostalgia

 

As escolas já estão de férias, nomeadamente para a comunidade de alunos. Para estes, são as tão esperadas férias de Verão, noutros tempos conhecidas como "férias grandes". Depois das férias do Natal e da Páscoa, chegam as mais longas e as mais ansiadas.


Noutros tempos eram quase três meses de tempo livre, destinado às brincadeiras mas sem se descurar a ajuda aos pais nas tarefas domésticas e até nos trabalhos do campo.
Hoje em dia os alunos, tanto os da escola primária como os mais velhos, já quase nada fazem de útil a não ser mesmo comer, dormir, brincar e preguiçar. Vejo isso pelos meus filhos e meus sobrinhos e de um modo geral por todos os outros. São uns autênticos inúteis. Diria até que as férias grandes representam para os pais responsabilidades e trabalhos acrescidos.


No meu tempo de criança, era frequente os rapazes que frequentavam a quarta classe ou Ciclo Preparatório irem trabalhar durante as férias ou parte delas, umas vezes como moços de trolha, ou até em fábricas e oficinas.  Era assim uma forma de ocuparem o excessivo tempo livre e de também ajudarem os pais, ou então ganharem alguns trocados para a compra de algumas coisas necessárias ou desejadas. Dessa forma ganhei parte do dinheiro com que comprei a minha primeira bicicleta. Sim, eu tive que ganhar o dinheiro para a minha bicicleta.


É certo que a questão do trabalho infantil é ainda hoje assunto de discussões. Se é consensual e não há grandes dúvidas quanto à proibição do trabalho em detrimento do percurso escolar, já no que diz respeito a trabalho sazonal num determinado contexto e com tarefas adequadas à idade e ao físico, há quem entenda ser uma forma positiva servindo como ambientação ou preparação para a vida activa anos depois. Eu também penso mais ou menos dessa forma. Mas há, no entanto, quem conteste mesmo esta posição mais soft e entenda que as crianças, por mais crescidas que sejam, não devem efectuar tarefas que consubstanciem trabalho.


Apesar disso, há muita hipocrisia e demagogia na interpretação do conceito do trabalho infantil. Considera-se como tal o trabalho no campo, na fábrica, na oficina ou até na construção civil, mas já não se constesta o trabalho infantil ao nível da indústria de audiovisual e produção de conteúdos de entretenimento. Veja-se a quantidade de crianças que trabalham actualmente em telenovelas, em televisão, cinema, etc. Não será isso trabalho infantil? Qual a diferença substancial? A quem importa esta dualidade?


Esta é de facto uma questão que dará "pano para mangas" e já foge ao objectivo do artigo. Para o caso, importa apenas deixar as comparações entre tempos diferentes como ponto de reflexão.

É certo que desde os meus tempos de criança até à actualidade as coisas melhoraram muito mas certamente com exageros nalguns aspectos. Com o alargamento da idade escolar obrigatória, pretende-se logicamente educar uma sociedade mais culta e torná-la supostamente mais qualificada. Infelizmente, outras medidas que deveriam ser paralelas e convergentes, ficaram para trás criando desequilíbrios sociais. Os filhos, deixaram assim de ser uma fonte de rendimento para as famílias, porque se empregavam cedo, e passaram a ser fontes de despesas e responsabilidades até idades tardias, muitas vezes para além dos recursos dos pais.

Não admira, pois, que tenhamos cada vez mais uma sociedade de gente jovem e adulta ociosa e que contacta cada vez mais tarde com o mundo do trabalho e das responsabilidades inerentes. São largos milhares os tais qualificados e licenciados desempregados ou em empregos precários e nada condizentes com as suas qualificações. Estaremos apenas a qualificar desempregados? Será caso para nos sentirmos orgulhosos de termos uma população desempregada mas qualificada e dependente ad aeternum da ajuda dos pais, com necessidades de cama, mesa e roupa-lavada?

O que mudou, o que falta mudar? Importa reflectir.

- Imagem retirada do Livro de leitura da primeira classe (clicar para ampliar).

 

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2 comentários:

  1. cantinhodacasa21/07/09, 23:12

    Quando comecei a ler este post, lembrei-me das muitas tarefas que fazia aqui em casa durante as férias. Tinhamos um mês de praia. Neste mês era a desforra total.
    Não havia nada do que há agora. Havia violas para serenatas na praia, havia noites quente para dançar junto ao mar, havia brincadeiras)partidas) que fazíamos uns aos outro, havia jogos que fazíamos até à hora de jantar, na praia, estivesse, frio, vento, calor. Dias e noites fantásticas.
    Hoje tudo é fácil.
    Diversão? Só com o copo na mão.
    Sou do Norte. Estes dias fui a Viana e vi a discoteca onde passei noite fantásticas, abandonada, perdida no meio das silvas...Que nostalgia.
    Ontem recebi um mail a divulgar uma festa, também em Viana, numa discoteca que nem sei onde fica.
    Mas gostei do cartaz "Remember Luziamar".
    Não sei se vou, mas o que mais gostaria era ver os meus amigos e amigas, já casados(as) todos juntos, e cantarmos as mesmas músicas daqueles anos 80/90 que foram dos melhores da minha vida de jovem.
    Quanto ao trabalho das crianças de hoje, chega exactamente comer, dormir e jogos de pc ou playstation.
    Hoje disse à minha pequena para me ajudar, tendo respondido que estava de férias. Eu acrescentei "Na tua idade tinha 1 mês de praia. Tinha de ajudar a minha mãe nas tarefas domésticas. Só à noite ia brincar um pouco para a rua".
    Os tempos de outrota eram dificeis pela dificuldade em obtermos o que desejávamos.
    Hoje são difíceis pela luta que os jovens travam para poderem sair de casa dos pais e terem uma vida própria.
    Tenho sobrinhos nesta situação.
    Gostei do post, como gosto de todos os que escreve.
    Desculpe-me este lomgo comentário.E mais teria a dizer.
    Abraço

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  2. Cantinhodacasa,
    realmente é como diz. É claro que hoje os tempos são outros e muitas coisas melhoraram efectivamente, e não poderia ser de outra maneira porque o andar dos tempos implica necessariamente mudanças ao nível da sociedade e das pessoas que a formam. Mas não é menos verdade que essa evolução nem sempre ocorre de forma equilibrada e consistente. Por isso, hoje constata-se quem em inúmeras situações passamos do 8 para o 80. Este caso em concreto das crianças é uma delas; Ao excesso de rigor e disciplina, muitas vezes com mão pesada, quer na escola quer em casa, temos agora uma situação geral de indisciplina, de facilitismo e de ociosidade. Verificando pelos meus, acredito, sem dúvida, que os filhos ainda têm amor pelos pais, porque o amor é universal e intemporal, mas o respeito, que pode ser complementar ou distinto desse amor, esse perdeu-se em larga medida porque a autoridade paterna ou social perdeu-se. Não admira, pois, que a sua filha lhe tenha dado essa resposta, porque os meus filhos respondem-me da mesma forma e certamente os outros não serão muito diferentes.
    É assim. Temos que saber conviver com estes novos tempos mas sem perder os bons valores que felizmente herdamos de nossos pais e avós, mesmo correndo o risco de sermos considerados retrógados porque esta dos valores morais e cívicos (que noutros tempos era disciplina) hoje em dia faz cócegas a muita gente.
    Cantinhodacasa, Volte sempre, mesmo com comentários mais longos.

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