03/07/2009

Os bois teimosos – Viagens pelos livros escolares - 13

 

manuel jeirinhas os bois teimosos santa nostalgia 02

os bois teimosos santa nostalgia 01

os bois teimosos santa nostalgia 02

(clicar nas imagens para ampliar)

 

Esta história do Manel Jeirinhas e os seus bois teimosos, como muitas outras que fazem parte do meu livro de leitura da terceira classe, remete-me frequentemente para os meus tempos de criança e para algumas situações então vividas.


Os meus avõs paternos eram grandes lavradores da aldeia e por conseguinte o meu pai, mesmo depois de casar, seguiu no início a vida da agricultura, ou da lavoura como se dizia, dedicando-se a amanhar uma meia-dúzia de ribeiras e alguns pinhais, que lhe couberam em herança, tirando daí o parco sustento para a família. É claro que a lavoura nunca enriqueceu ninguém, tanto mais nessa época sem subsídios nem apoios estatais, pelo que quando os filhos começaram a aparecer e a crescer teve que arranjar um emprego fixo numa oficina, onde mesmo assim obtinha um magro salário, ficando a lavoura a cargo de minha mãe. No entanto, toda a família ajudava em todos os momentos que podia, quer nos tempos livres da escola quer aos sábados, um dia que se dedicava totalmente aos trabalhos nos campos.


Nessa vida muito ligada à lavoura, para além de algumas vacas leiteiras, o meu pai possuía uma junta de bois, daqueles amarelos, de raça arouquesa. Neste sentido, muitas vezes, eu, com 10 anitos e o meu irmão chegado, com 12 anos, frequentemente ía-mos levar os bois a pastar nuns pinhais da família. Enquanto os bois pastavam livremente, nós brincávamos. Quando chegava a hora de voltar a casa, porque o sino da igreja repicara o toque de meio-dia, aplicávamos uma valente varada no lombo dos bois e estes, de forma desenfreada, corriam até a casa. Quando lá chegávamos, uns largos minutos depois, os bois já estavam no curral, ou no aido como era vulgar dizer-se. Estes bois eram de facto trabalhadores, inteligentes e nada teimosos, como os do Manuel Jeirinhas. É claro, que muitas e muitas vezes cheguei a fazer o papel do Jeirinhas, conduzindo os nossos bois desde desde as ribeiras e várzeas até a casa, carreando por caminhos difíceis o pasto, milho, feijão, batatas, uvas, lenha, tojo, etc, afinal de contas os produtos que eram a razão de ser do dia-a-dia de uma família ligada à lavoura. Foram tempos de canseiras e trabalhos mas que dava tudo para voltar a reviver.


Hoje em dia, seria impensável enviar duas crianças para um pinhal afastado com a responsabilidade de cuidar de uma junta de bois. Mas nós gostávamos e o trabalho era sempre aliado à brincadeira. Éramos assim uma espécie de crianças-homens. Hoje, à custa de tanta mudança, à custa de tanta protecção, à custa de tanta dependência,  predominam os homens-criança e assim há-de continuar.

Estando agora de férias da escola, olho para o meu filho de 11 anitos, acomodado no sofá, com o portátil em cima das pernas ou a consola de jogos nas mãos, entretido horas e horas a fio com os jogos e os filmes. Imagino-me, então, com aquela idade a conduzir pela soga uma junta de enormes bois, por caminhos e quelhos à procura de viçoso pasto dos pinhais e cômoros. Meu Deus, como as coisas mudaram…


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. As coisas são como são. É a marcha imparável do Tempo.

 

vaca arouquesa santa nostalgia

- Vaca de raça arouquesa, fotografada num destes dias na Serra da Freita - (clicar na imagem para ampliar)

 

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8 comentários:

  1. Si se me permite, voy a contar una anécdota que le ocurrió a mi padre (q.e.p.d.), cuando era niño, allá en Galicia. Fue al prado con las vacas y un perro pastor alemán. Mientras las vacas pastaban, y a la sombra de un "amieiro", con buena temperatura, se quedó dormido. Al despertar, se encontró, con que, a su lado estaba un conejo (coello) muerto, aún caliente, y el perro pastor alemán mirándole fijamente y con cariño. Se supone que el noble can, mientras mi padre dormía, se dedicó a la caza del conejo, lo atrapó a la carrera, y sin machacarlo lo posó como regalo a mi padre.......
    Saludos.

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  2. Passei aqui uns bons minutos a ler este post, e que prazenteiros momentos..

    De facto é verdade, não querendo parecer nenhum "velho do restelo", existe uma diferença abismal entre a maioria das crianças actuais e as de há 30 ou 40 anos atrás em Portugal.
    Eu já não vivenciei experiências como pastar bois ou rebanhos, mas mesmo assim acompanhava os meus avós nas lides do campo (nas "Férias Grandes"), como a lavoura, a apanha da azeitona, etc.. sob um abrasivo sol de 30 e tal graus.
    E íamos numa carroça puxada por uma Mula...

    Mas hoje.. É muito difícil alhear a petizada mais que umas horas da net, do telemóvel, dos gameboys.. e estar em contacto com a vida do campo.

    Cumps!

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  3. Cheguei aqui via Delito de Opinião. Em boa hora. Vou agradecer-lhe ter colocado aqui a "história do Jeirinhas"
    :))))

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  4. @ filomeno:
    é uma boa história. Por essas e por outras é que o cão (perro) é considerado o fiel amigo.

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  5. @ ip16:
    De facto assim é. Felizmente as pessoas começam a aperceber-se dessa situação e já vão aderindo a programas ocupacionais em períodos de férias onde, de alguma forma, se pretende fazer com que os miúdos se desliguem de todas essas tecnologias em detrimento de outras actividades incluindo algumas ligadas à vida do campo.

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  6. @ mdsol:
    Eu é que agradeço a visita.
    Volte sempre.

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  7. cantinhodacasa14/07/09, 00:37

    Coincidência, e porquem como ja disse noutro comentário, a lousa, levou-me a outras recordações.
    Fui buscar a capa do livro da 3ª classe.
    Ainda me lembro deste texto.
    Obrigado por estas agradáveis «santas nostalgias»

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  8. Ainda hoje tenho na minha posse esses livros.Da-me grande prazer reler os textos.Assim relembro a minha infância na aldeia. Aos onze vim para Lisboa para poder estudar mais um pouco.Tenho cinquenta e cinco anos, mas recordo com saudade esses tempos. É bom alguém dar-nos estes momentos de alegria. Obrigado.

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