07/10/2009

O “Jogo da Macaca”

 

macaca santa nostalgia

Dos jogos de crianças associados ao recreio da escola primária, o  "Jogo da Macaca" era um dos mais populares.
Este jogo é conhecido por todo o país, mas, naturalmente, com variantes de região para região, quer na forma geométrica da “macaca” quer nas suas regras.


Na minha aldeia, brinca-se assim o jogo da macaca: No chão, preferencialmente de terra, desenha-se de forma indelével a "macaca", constituída por sete "casas", sendo três seguidas de formato sensivalmente rectangular e terminando num círculo dividido em quatro quartos.


Habitualmente eram admitidas a jogo três crianças, quase sempre raparigas, que sorteavam entre si a ordem de começo. A primeira ficava com o nome de "primas", a segunda de "xigas", a terceira e última de "restas".

O objecto que serviria para percorrer a "macaca", em forma de disco ou patela, chamava-se "malha" e habitualmente era feita toscamente com um caco de barro que poderia ser de uma telha ou de um prato. Também poderia ser em pedra, desde que regular e achatada.

A primeira jogadora lançava a malha com a mão de modo a que esta ficasse no interior da primeira "casa", mas sem que ficasse a "pisar" ou a “queimar” o risco. Se assim fosse teria que dar o lugar à jogadora seguinte e assim sucessivamente. Este princípio aplicava-se também no caso da "malha" caír na "casa" errada ou saltar fora da "macaca". Sendo que a "malha" ficava na casa de forma correcta, a jogadora saltava de pé-coxinho para a mesma casa e sempre nessa postura posicionava a ponta do pé junto à malha e com um movimento rápido atirava com a "malha" para para a “casa” imediata no sentido contrário ao movimento dos ponteiros de um relógio, até que dessa forma completasse todo o percurso até saír para a zona do “céu”, no exterior da “macaca”.

Importa esclarecer que quando a "malha" ficava posicionada de forma legal mas muito próxima do risco fronteiro com a "casa" anterior, o que impedia o posicionamento do pé sem que calcasse o respectivo risco, era permitida uma manobra que consistia em posicionar o pé de forma lateral à "malha", mas sem calcar o risco e depois num rápido movimento de vai-e-vem, jogava a "malha". No entanto, quando o pé retornasse à primeira posição não poderia ficar em cima do risco, a “queimar”,  sob pena de perder a vez. Sempre que se retomava a vez de jogar, reiniciava-se no ponto onde se havia perdido a vez.


O processo repetia-se de forma sucessiva até que cada jogadora percorresse todas as "casas". Sempre que isso acontecia, a jogadora colocava-se de costas junto à extremidade da "macaca" na chamada zona do "céu", e lançava a malha sobre o ombro para dentro da "macaca". Se a "malha" caísse numa das casas vazias assinalava a mesma com o seu nome ou uma marca que a diferenciasse. Neste caso dizia-se que tinha feito uma "rola". Se nessa etapa do lançamento "às cegas" da "malha" para o interior da macaca falhasse, saindo fora da "macaca" ou caíndo numa "casa" já assinalada, perdia a vez para a jogadora seguinte. O número destes lançamentos poderia ser combinado previamente, mas não poderia ultrapassar as três tentativas.


O "Jogo da Macaca" terminava quando todos os sete espaços da "macaca" estivessem com "rolas". Ganhava a jogadora que somasse mais "rolas".


Resta acrescentar que à medida que a "macaca" ía ficando preenchida com "rolas" o jogo tornava-se mais difícil pois não era permitido lançar a malha para as casas com "rolas" adversárias nem passar por lá, pelo que exigia por vezes grandes saltos. Todavia, cada jogadora podia calcar ou passar pelas "casas" com "rolas" desde que fossem suas ou se autorizada pela dona das “rolas”. Esta situação de autorização por vezes criava conflitos e rivalidades já que comportava regras de favorecimento. Por isto, por vezes determinava-se previamente que essa situação não seria permitida.


Esta era a tradicional "macaca" da minha aldeia. Muito raramente era jogada a versão mais vulgarizada de nove "casas".

 

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