01/01/2010

Balada da neve – Augusto Gil

 

balada da neve santa nostalgia

balada da neve santa nostalgia 2

(ilustração de baixo: pintado com a boca por Alexsandr Ivanov)

BALADA DA NEVE


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva ? Será gente ?
Gente não é, certamente,
e a chuva não bate assim...

E talvez a ventania:
mas há pouco, hà poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente ?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria.
- Hà quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pèzitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!
Porque padecem assim ? ! ...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa
Cai neve na Natureza...
e cai no meu coração.

 

Augusto Gil

*

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1 comentário:

  1. Ainda noutro dia me veio à cabeça este poema.

    Bom ano novo!

    :)

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