14/01/2011

Bom dia! Como passou vossa excelência?

 

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Hoje em dia vivemos numa sociedade chamada global e para isso têm contribuído sobremaneira as tecnologias de informação e comunicação, como a internet e suas ferramentas. Agimos e interagimos e a blogosfera e as redes sociais, pelas suas características, têm neste particular uma importância relevante. Resumindo, aparentemente nunca estivemos tão próximos, tão em contacto uns com os outros, e todavia, para lá do biombo, do monitor ou ecrã que nos divide desse mundo global mas virtual, nunca estivemos tão afastados, tão solitários e simultaneamente expostos e vulneráveis.

Neste mundo de relações sociais mas virtuais, alguns conceitos e valores estão completamente subvertidos. Veja-se, no caso da rede social do momento, o Facebook, onde o conceito de amigo ou amizade anda pelas ruas da amargura. Ali os amigos contam-se aos milhares e os pedidos chegam como a sardinha na canastra, compacta e uniforme, descaracterizada e sabe-se lá por que motivos. Ali os gestos de amizade medem-se pelas banalidades e trivialidades e poucos são os que realmente cultivam a verdadeira amizade ou interagem com algo que se aproveite. O Facebook é assim uma espécie de laranja mecânica, de casca grossa e sem qualquer sumo por mais que se esprema.

Para justificar e compreender a banalidade a que hoje chegou o valor da amizade, temos que olhar ao nosso redor, na nossa casa, na nossa família, aldeia, bairro ou cidade. Mesmo considerando as escassas excepções que sempre hão-de existir para confirmar a regra, hoje em dia não nos conhecemos. Podemos até ver com regularidade o nosso vizinho da frente, do lado, de cima ou de baixo, mas muitas vezes não passa disso. Saímos à rua, cruzámo-nos com pessoas, conhecidas ou desconhecidas, mas não os olhamos de frente, olhos nos olhos, não lhes fazemos um simples gesto de saudação, não lhes sorrimos nem balbuciamos um simples olá, ou um viva. Quando muito, olhamos para o lado ou para o chão ou até atalhamos caminho ou fingimo-nos distraídos a olhar para o infinito ou com o nariz na montra. Esta indiferença vale tanto para crianças como para adultos ou idosos. Pelo contrário, e relativamente aos idosos, a nossa tendência será até num sentido de repulsa e escárnio, principalmente se para além dos aspectos de decadência física, revelarem um aspecto de desmazelo e abandono.

Frequentemente, mesmo na minha pequena aldeia, reparo que durante a celebração de uma Missa, as crianças ocupam os lugares, sozinhas ou ao lado dos pais, mas mesmo tendo uma pessoa idosa ao lado e em pé, não têm a cultura e a educação para lhes oferecer e ceder o lugar. É claro que a culpa não é das crianças, mas dos pais e da educação e valores que lhes transmitiram.

Não deixo, pois, de evocar os meus tempos de criança, em que na mesma situação, sabíamos oferecer e ceder o lugar aos mais velhos, mesmo que não fossem propriamente doentes. E quando o fazíamos, ficava no peito e no coração um sentimento de dever cumprido.

Diariamente, ao levantar e ao deitar, havendo oportunidade, pedia-se a bênção dos pais. - Dê-me a sua bênção, meu pai! - Deus te abençoe!

Este procedimento aplicava-se para com os padrinhos de baptismo ou para com os avós.

Sempre que se passava por alguém na rua, havia lugar para um "Bom dia", "Boa tarde" ou Boa noite". Também um "Até amanhã, se Deus quiser", ou "Vá com Deus". Já nem falo noutros procedimentos mais formais ou sociais, como o subalterno tirar o chapéu na presença de alguém com estatuto social ou profissional mais elevado. Nesses tempos havia essa distinção, é verdade que por alguma cultura de subalternidade mas também por educação e reconhecimento próprio para quem de facto exercia cargos e profissões importantes.

É claro que se pode relacionar estes hábitos com uma certa cultura religiosa ou cívica, ou mesmo cultural, mas mais do que isso revelavam quase sempre uma base de respeito pelos pais, pelos mais velhos e por todos em geral, mesmo desconhecidos. Actualmente, porém, tudo isso foi abandonado e hoje pautamo-nos pela indiferença de tratamento, respeitamo-nos muito pouco e tratámo-nos como estranhos, como desconhecidos. Por isso, a forma de nos dirigirmos a um simples mas digno operário é exactamente a mesma do tratamento dado a um professor, um médico, um sacerdote, um ministro ou um magistrado. A pretexto de princípios de suposta igualdade e contra supostos preconceitos, nivelamos tudo, mas por baixo. Como costumo dizer, de algum exagero do 8, passamos para o exagero do 80.

Com toda essa igualdade, essa indiferenciação de estatuto e condição, perdemos o respeito pelos outros e até por nós próprios. Ao ensinamento velhinho de que devemos saber ocupar o nosso lugar, não deixamos de classificar essa máxima como desajustada e fora de prazo porque considerámo-nos todos ao mesmo nível, não porque o não sejamos na essência humana, mas porque perdemos os valores e os parâmetros que balizavam alguma diferenciação de tratamento. Exemplificando com o caso da escola, dos alunos e professores, estes, outrora considerados mestres e por quem se nutria respeito mas também admiração tanto pela pessoa como pela dignidada da função,  hoje tornaram-se vulgares funcionários, desprezados e desconsiderados, impedidos de exercer a autoridade e disciplina e por conseguinte expostos à má educação e desaforo do sistema, dos pais e alunos de toda a espécie, pepinos crescidos sem quaisquer torcimentos.

Chegamos assim a um ponto onde qualquer laivo de boa educação cívica e moral, mesmo a que bem herdada de nossos pais e avós, tornou-se obsoleto, desnecessário e até motivo de risada, de escárnio ou de espanto.

Tenha, pois, cuidado, ao passar na rua e saudar alguém com um jovial "Bom dia!" pois, mesmo que o conheça, poderá olhar para si de forma espantada e intrigada.

Para o bem e para o mal, as coisas chegaram a este ponto de caramelo e em grande parte justificam a fonte de muita da actual violência gratuita e o desprezo pela vida e condição humanas.


2 comentários:

  1. Excelente texto!!
    Uma reflexão muito pertinente e perfeitamente de acordo com o que sinto e penso.

    Os meus parabéns.
    Um abraço

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  2. Até mesmo as vezes nos comentários dos blogues
    as pessoas sem respeito pelo seu autor
    dizem palavrões(escrevem) se ofendem, é de uma tristeza
    de ficar incrédulo este texto esta muito bom
    bem haja.

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