22/01/2020

Manuais (livros) escolares


Sou um apreciador de manuais escolares. Creio que já o terei dito por aqui. Mas deles sobretudo os de leitura,  relacionados ao ensino primário e os datados de 1980 para baixo. 

Não sou coleccionador nem tenho carteira para isso, mas confesso que possuo umas largas dezenas de diferentes exemplares, de diferentes épocas e em diferentes estados de conservação. Apesar de preferir os de leitura, como disse, obviamente que tenho muitos outros de diferentes disciplinas, como de História, Geografia, Ciências da Natureza, Gramática, etc,. Paralelamente também tenho muitos cadernos de exercícios e cadernos para escrita.

Não sou, como disse, coleccionador, e muito menos especialista no assunto dos manuais escolares, mas tão somente um apreciador.
Ao longo do tempo tenho publicado por aqui algumas notas sobre alguns desses muitos velhinhos manuais e sempre que houver tempo e disposição, continuarei a fazê-lo. 

Os manuais escolares para além do que nos ensinam, ou ensinaram, são um exemplo e um testemunho físico da evolução da forma de transmitir o ensino em Portugal. São por isso, parte da história da Educação e bastaria isso para serem entendidos e apreciados com importância.

Há fontes por aí que asseguram que o mais antigo manual português de que há conhecimento se reporta ao séc. XVIII, concretamente a 1722, é o  de autoria de  Manuel de Andrade de Figueiredo (1670-1735), designado de  "Nova Escola para aprender a ler, escrever, e contar" (imagem acima). Não tenho, tal livro, nem me merece ambição de o ter, desde logo porque são documentos raros e caríssimos e mesmo as edições fac-similizadas embora mais acessíveis também são caras. Todavia, estas nalgumas situações até se podem encontrar a preços mais ou menos acessíveis. Mas certamente que para um especialista do assunto ou coleccionador, não sendo em rigor um manual escolar tal como o entendemos, será certamente um livro indispensável. 

Este livro quando surgiu, num país muito iletrado, analfabeto, em que a escola era uma instituição para poucos, de alguma forma veio atenuar a lacuna que se registava na difusão da caligrafia, da ortografia e da aritmética. 

Com o Estado Novo, logo a partir da década de 1930, o regime passou a controlar os programas dos manuais escolares, sobretudo os de leitura, tornando os mesmos, para além da função do ensino e da aprendizagem das letras e das leituras, veículos de doutrinação com destaque para os símbolos do regime,  do patriotismo exacerbado, para além de ouros valores que foram tão caros ao Estado, como a componente da religião e família e a valorização dos elementos do trabalho, da natureza, da nossa paisagem, cultura popular, a exaltação dos heróis e heroísmos da nossa História.

É comum afirmar-se que os manuais escolares do tempo do Estado Novo, sobretudo os das décadas de 40 e 50 foram um veículo de educação reconvertido em propaganda do regime. Não há como negá-lo, mas  apesar de serem olhados com esse olhar crítico e por vezes numa filosofia de politicamente correcto e repleto de clichés, certo é que simultaneamente transmitiam valores nobres e fundamentais como o respeito pelo próximo, sobretudo aos familiares, crianças e idosos, bem como o amor pela natureza, pela nossa identidade cultura e história. Porventura, alguns desses valores estão nos dias de hoje em carência,  mas de algum modo pagamos os exageros de uma mudança do 8 para o 80. Poucos com responsabilidades políticas e sociais se preocuparam com o equilíbrio da mudança. As consequências são por demais conhecidas.

A partir do final de década de 1960 e até ao final do regime,  os manuais escolares conheceram alguma transformação, quer de conteúdos, com um nítido aligeirar da simbologia patriótica e do regime, com temas mais quotidianos, mais ligeiros,  mas sobretudo nos aspectos gráficos. Dessa mudança ou transformação, os manuais mais significativos e emblemáticos são aqueles que foram os meus livros da primeira e segunda classes,  de Maria Luísa Torres Pires, Francisca Laura Batista e Glória N. Gusmão Morais; Judite Vieira, Manuel Ferreira Patrício e Silva Graça, respectivamente, ambos com  ilustrações cuidadas, de qualidade artística e cromática, de autoria de Maria Keil (1914.2012) e Luís Filipe de Abreu (1935).


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