28/01/2020

Leituras da 2ª Classe - Filipe de Oliveira



Hoje trazemos à memória o antigo manual escolar "Leituras para a 2ª Classe", de Filipe de Oliveira - Livraria Popular Francisco Franco.
Não tem data mas seguramente de meados da década de 1920 já que se refere como aprovado pelo Governo para o sexénio de 1922-23 a 1927-28.

Com um grafismo próprio desse tempo, com algumas ilustrações e fotografias e preto-branco.
Capa mole, com 62 páginas num formato de 12 x 18 cm.

Como curiosidade, terá sido o manual daqueles que nos dias de hoje, se vivos, são centenários. O tempo voa.






22/01/2020

Manuais (livros) escolares


Sou um apreciador de manuais escolares. Creio que já o terei dito por aqui. Mas deles sobretudo os de leitura,  relacionados ao ensino primário e os datados de 1980 para baixo. 

Não sou coleccionador nem tenho carteira para isso, mas confesso que possuo umas largas dezenas de diferentes exemplares, de diferentes épocas e em diferentes estados de conservação. Apesar de preferir os de leitura, como disse, obviamente que tenho muitos outros de diferentes disciplinas, como de História, Geografia, Ciências da Natureza, Gramática, etc,. Paralelamente também tenho muitos cadernos de exercícios e cadernos para escrita.

Não sou, como disse, coleccionador, e muito menos especialista no assunto dos manuais escolares, mas tão somente um apreciador.
Ao longo do tempo tenho publicado por aqui algumas notas sobre alguns desses muitos velhinhos manuais e sempre que houver tempo e disposição, continuarei a fazê-lo. 

Os manuais escolares para além do que nos ensinam, ou ensinaram, são um exemplo e um testemunho físico da evolução da forma de transmitir o ensino em Portugal. São por isso, parte da história da Educação e bastaria isso para serem entendidos e apreciados com importância.

Há fontes por aí que asseguram que o mais antigo manual português de que há conhecimento se reporta ao séc. XVIII, concretamente a 1722, é o  de autoria de  Manuel de Andrade de Figueiredo (1670-1735), designado de  "Nova Escola para aprender a ler, escrever, e contar" (imagem acima). Não tenho, tal livro, nem me merece ambição de o ter, desde logo porque são documentos raros e caríssimos e mesmo as edições fac-similizadas embora mais acessíveis também são caras. Todavia, estas nalgumas situações até se podem encontrar a preços mais ou menos acessíveis. Mas certamente que para um especialista do assunto ou coleccionador, não sendo em rigor um manual escolar tal como o entendemos, será certamente um livro indispensável. 

Este livro quando surgiu, num país muito iletrado, analfabeto, em que a escola era uma instituição para poucos, de alguma forma veio atenuar a lacuna que se registava na difusão da caligrafia, da ortografia e da aritmética. 

Com o Estado Novo, logo a partir da década de 1930, o regime passou a controlar os programas dos manuais escolares, sobretudo os de leitura, tornando os mesmos, para além da função do ensino e da aprendizagem das letras e das leituras, veículos de doutrinação com destaque para os símbolos do regime,  do patriotismo exacerbado, para além de ouros valores que foram tão caros ao Estado, como a componente da religião e família e a valorização dos elementos do trabalho, da natureza, da nossa paisagem, cultura popular, a exaltação dos heróis e heroísmos da nossa História.

É comum afirmar-se que os manuais escolares do tempo do Estado Novo, sobretudo os das décadas de 40 e 50 foram um veículo de educação reconvertido em propaganda do regime. Não há como negá-lo, mas  apesar de serem olhados com esse olhar crítico e por vezes numa filosofia de politicamente correcto e repleto de clichés, certo é que simultaneamente transmitiam valores nobres e fundamentais como o respeito pelo próximo, sobretudo aos familiares, crianças e idosos, bem como o amor pela natureza, pela nossa identidade cultura e história. Porventura, alguns desses valores estão nos dias de hoje em carência,  mas de algum modo pagamos os exageros de uma mudança do 8 para o 80. Poucos com responsabilidades políticas e sociais se preocuparam com o equilíbrio da mudança. As consequências são por demais conhecidas.

A partir do final de década de 1960 e até ao final do regime,  os manuais escolares conheceram alguma transformação, quer de conteúdos, com um nítido aligeirar da simbologia patriótica e do regime, com temas mais quotidianos, mais ligeiros,  mas sobretudo nos aspectos gráficos. Dessa mudança ou transformação, os manuais mais significativos e emblemáticos são aqueles que foram os meus livros da primeira e segunda classes,  de Maria Luísa Torres Pires, Francisca Laura Batista e Glória N. Gusmão Morais; Judite Vieira, Manuel Ferreira Patrício e Silva Graça, respectivamente, ambos com  ilustrações cuidadas, de qualidade artística e cromática, de autoria de Maria Keil (1914.2012) e Luís Filipe de Abreu (1935).


16/01/2020

O homem salamandra


Cartaz publicitário de 1946 ao Socony - Vacuum Oil Company, Inc.

Para além de tudo o mais, não deixa de ser curioso o título. Ainda o famoso Homem Aranha (Spider Man), essa figura popular figura da banda desenhada e depois convertida ao cinema, criada por Stan Lee e Steve Ditko, não tinha sido criado, já que a primeira aparição aconteceu em Agosto de 1962 e já existia, imagine-se, o Homem Salamandra. 

Não tenho conhecimento de que tenha dado em super-herói da banda desenhada este Homem Salamandra mas, pela perigosidade da sua tarefa não deixava de ser um herói de carne-e-osso. Ademais, com um fato de amianto, na altura certamente cheio de virtudes mas actualmente considerado cancerígeno, o heroísmo era ainda maior.

Quanto à Socony Vacuum Oil foi a antecessora da popular empresa petrolífera Mobil.

09/01/2020

Partida...


Há coisas assim, tristes, que se apoderam de nós de uma forma inexplicável. Compreende-se face a um desaparecimento de alguém próximo, que conhecemos, que gostamos, que amamos. Mas de alguém que só conhecemos pelos caminhos do mundo digital e com quem nunca tivemos contacto pessoal, nem sequer lhe conhecemos o rosto, é mais difícil de explicar, mas seguramente devido a uma corrente muito humana de sentimento e empatia.

Há tempos, através de um blog que comecei por experimentalismo na plataforma Sapo, essencialmente com algumas ilustrações, mas que pouco durou, porque muitas vezes as coisas terminam em desapego tão rapidamente quanto o entusiasmo inicial, alguns dos comentários que ali recebi eram de uma autora de um outro blog na mesma plataforma, onde usava um pseudónimo de Marta mais qualquer coisa, mas Paula C. de nome real.

Através do meu contacto no dito blog, um dia recebi um email em que se mostrava interessada que lhe ilustrasse uma pequena história para um livro infantil que publicaria em edição de autor. Já tinha publicado algumas outras histórias de sua autoria mas queixava-se do elevado preço pago aos ilustradores para além das dificuldades de reconhecimento e divulgação próprias de edições de autores.

Aceitei o desafio e elaborei uma dúzia de ilustrações para o livro, que adorou. Queria pagar mas eu disse-lhe que não pagaria nada. Como contrapartida receberia apenas alguns livros.

Infelizmente, por motivos de doença oncológica com que já se debatia há algum tempo, a publicação acabou por ficar adiada.

Ontem, por um mero acaso, cheguei ao seu blog onde alguém no turbilhão de comentários estranhando a longa ausência, noticiou que falecera, logo a seguir ao último Natal. De resto, também soube agora, que em Agosto publicara algo a dar conta que o seu problema já não tinha cura e estava a aguardar a partida.

Que descanse em paz.

Quanto às ilustração ficam como memória. Quem sabe ainda tentarei o contacto de alguém da família para ver se têm interesse em dar seguimento ao que ela projectara. Enviei um email na esperança de que, como quem manda uma mensagem num garrafa através do mar, alguém com acesso respondesse, mas para já nada, e é bem provável que ninguém, mesmo chegado, tenha acesso ao email e me venha a responder. Por outro lado também não me sinto no direito de usar a sua história e tentar a publicação.

Mas, quem sabe, talvez alguém, nesta longa praia digital, receba a garrafa. Quem sabe...

08/01/2020

Fósforos Girassol


Fósforos "Girassol" - Cartaz publicitário do ano de 1948.

No tempo em que os pequenos fósforos eram tratados como coisa grande e indispensável no dia-a-dia.
Esta marca era uma das produzidas pela Companhia Lusitana de Fósforos, nesses tempos situada na Rua Silva Porto, junto ao Centro Hípico do Porto, do Sport Club do Porto.
Esta Lusitana foi uma das muitas que surgiram depois de 1925, ano em que terminou o monopólio até então, desde 1895, mantido pela Companhia Portugueza de Phósphoros. 
Em 1967 a Lusitana terminou os seus dias sendo integrada na Sociedade Nacional de Fósforos, então a mais moderna e desenvolvida fruto da sua parceria, desde 1930, com a prestigiada fabricante sueca Swedish Match.  
A SNF findou a sua actividade em 1993, já numa altura de mudanças tecnológicas e com os fósforos a perderem a sua importância, face à generalização dos isqueiros e outros tipos de produção de lume, resistindo-lho a rival do sector, a Fosforeira Portuguesa, de Espinho, que terminou em 2006.
Para além da importância do sector e do produto em si, a indústria dos fósforos desde os primeiros tempos que deu lugar a uma vertente importante do coleccionismo, o filuminismo, já que os rótulos das caixas e carteiras reproduziam muitos temas gráficos, como fauna e flora, usos e costumes, vestuários, objectos, desporto, figuras, etc, etc.
O filuminismo mantém-se mas, pelo menos no nosso país, já sem fontes de fornecimento de novos itens. Os poucos fósforos que se vão vendendo raramente se preocupam com a elaboração e produção de grafismos dignos de colecção.

31/12/2019

Moça - Leite condensado - Nestlé


Cartaz publicitário de 1942 ao leite condensado "MOÇA", da Sociedade de Produtos Lácteos, de Avanca.

São já muitos os anos passados mas a marca continua a existir embora agora como parte do Grupo Nestlé. A Nestlé Portugal teve origem precisamente na empresa de Avanca, como se poderá constatar pelas informações abaixo.



Sobre a Nestlé Portugal - Datas Chave:


1923
Fundação da Sociedade de Produtos Lácteos, Lda., tendo como principal sócio o Prof. Egas Moniz, e nasce em Santa Maria de Avanca a primeira fábrica portuguesa de leite em pó simples, que será o embrião do que é hoje a NESTLÉ PORTUGAL.
1933
A Sociedade de Produtos Lácteos obtém o exclusivo da fabricação e venda dos produtos NESTLÉ. Início do crescimento da empresa.
1948
Início da comercialização dos produtos MAGGI.
1958
Início da comercialização de NESCAFÉ®.
1968
Fundação da Prolacto Lacticínios de S. Miguel, em São Miguel, nos Açores.
1971
Início das atividades do negócio Nestlé Foodservices, com uma gama diversificada de produtos para restauração, pastelaria e vending.
1973
A Sociedade de Produtos Lácteos passa a designar-se NESTLÉ PRODUTOS ALIMENTARES, S.A.R.L..
1974
Início do fabrico de NESCAFÉ® na Fábrica de Avanca.
1978
Início do fabrico de produtos culinários (Sopas e Caldos Maggi ) na Fábrica de Avanca.
1984
Início do fabrico e comercialização de produtos Ultra-Congelados Findus na Fábrica da Gafanha da Nazaré. Aquisição da fábrica de chocolates Rajá.
1985
Início do fabrico do Chocolate Nestlé na fábrica da Rajá. Aquisição da Tofa – Torrefacção de Cafés, Lda..
1986
Início da fabricação dos Cereais de pequeno-almoço na Fábrica de Avanca. Alteração da designação social para NESTLÉ PORTUGAL, S.A..
1987
Aquisição da empresa Casa Christina – Torrefacções. Aquisição da empresa Sical –Torrefacções.
1990
Aquisição de uma participação na Sociedade de Águas de Pisões – Moura, S.A..
1993
Aquisição da empresa Longa Vida (iogurtes e sobremesas lácteas) e da Buondi (café torrado).
1994
Aquisição internacional dos Gelados Motta. Lançamento do Nestea. Inauguração da nova sede da Nestlé Portugal, em Linda-a-Velha.
2001
A Nestlé adquire uma posição dominante na Société Générale des Eaux Minérales de Vittel, tornando-se o seu maior acionista. Aquisição da empresa francesa de águas Perrier.
2002
A Sociedade de Águas de Pisões – Moura, S.A. muda a sua designação social para Nestlé Waters Portugal, S.A.. Criação do negócio Nestlé Purina Pet-Care em Portugal.
2003
Incorporação da Nestlé S.G.P.S. na Nestlé Portugal, S.A. Celebração dos 80 anos da Nestlé em Portugal. Visita do Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio, à Fábrica da Nestlé em Avanca. Em função da aquisição internacional do Grupo Powwow, integração no Grupo Nestlé em Portugal da empresa Selda – Comércio e Representações, Lda. Lançamento do negócio Nespresso em Portugal.
2005
A Selda – Comércio e Representações, Lda. Altera a sua denominação para Nestlé Waters Direct Portugal – Comércio e Distribuição de Produtos Alimentares, S.A..
2006
Constituição da joint venture Lactalis Nestlé Produits Frais para o negócio de iogurtes e sobremesas lácteas na Europa. Em Portugal, este negócio é gerido pela Sociedade Longa Vida – Indústrias Lácteas, S.A., que passa a integrar a joint venture Lactalis Nestlé Produits Frais.
2008
Comemoração dos 85 anos de presença Nestlé em Portugal.

[fonte: Nestlé]

26/12/2019

Caldeirada de Natal

A tradicional Caldeirada de Natal, prato principal da consoada portuguesa, tem como base o bacalhau, a batata e a couve-penca. Estes são os principais ingredientes a que, por tradição de cada família ou de região, podem ser acrescentados outros, bem como divergir nalguns aspectos da preparação.

Cá pela nossa região, Beira Litoral, o prato na sua tradição e na sua forma mais generalizada resulta aproximadamente na configuração da imagem acima, no caso, a da nossa casa. Temos, pois, ali bacalhau, batatas e couve-penca, cozidos e regados com molho composto por azeite do bom, ligeiramente fervido, com cebola, a que se junta, a gosto, um fio de bom vinho maduro tinto. Naturalmente que há quem prefira azeite simples. Pode-se juntar um ovo cozido ou qualquer outro ingrediente adequado e que componha o ramalhete. No nosso caso, no que em muito ajuda ao sabor, a batata, a couve-penca e a cebola, são da nossa horta.

Sabendo que num restaurante gourmet uma daquelas travessas daria para 20 doses, mas, passe a brincadeira, cá na casa e em muitas outras, uma daquelas travessas dá apenas para três ou quatro pessoas, que podem comer de forma partilhada. Neste ano por cá foram preparadas cinco destas.

Contudo, com a tradição a cada vez mais a ser alterada,  ...ou reinventada, como gostam de pregar certos "chefes", consoadas há em que já não tem lugar o fiel amigo mas antes carnes, como o peru, frango, polvo ou outras variações mais ou menos inesperadas. É certo que a comida é apenas um dos elos da tradição e o mais importante é o que deve estar subjacente ao espírito do verdadeiro Natal, como os valores da família unida e irmanada, partilha e solidariedade para quem mais precisa. 
Se estes valores têm ou não peso, ou se o consumismo, marketing e comércio ditam as suas leis e são já a marca que define o Natal, isso são aspectos que já não cabem por aqui, mesmo que a esse conjunto   de coisas secundárias continuem a designar de Natal.

Cá por casa e na região, a tradição e o peso dos valores inerentes ao Natal cristão ainda vão valendo e ditando a vivência de toda a quadra que termina apenas após a Consoada de Reis, em tudo igual à do Natal.

Católico, cristão, ecuménico ou laico, com ou sem tradições, Feliz Natal!