03/09/2018

Cantigas e cantadores ao desafio


(Cunha de Vila Verde e Adília de Arouca)

Sendo que, infelizmente, os cantares ou desgarradas ao desafio marcam cada vez menos presença nas festas e romarias da minha região (Beira Litoral), mas apenas de forma esporádica, tempos houve em que em quase todas faziam parte do cartaz musical com regularidade. Assim, pelo menos por cá, é notório que esta tradição de fortes raízes cultural e musical tem vindo a perder terreno em detrimento de um qualquer artista ou grupo, mesmo que de fraca ou duvidosa qualidade. Infelizmente, digo, muito do nosso povo apenas vê nos cantadores um registo monótono e sem a vivacidade rítmica que se espera para uma festa moderna. Infelizmente nesta depreciação, para além da questão de gostos pessoais que se devem procurar respeitar, reside, todavia, muita ignorância cultural e musical relativamente ao entendimento de um estilo que é rico na sua forma e conteúdo.

Apesar disso, sobretudo no Minho, não há festa nem romaria, mesmo das mais afamadas como a Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, Feiras Novas, em Ponte de Lima, S. Bartolomeu, em Ponte da Barca, S. João de Arga, em Caminha, entre largas dezenas de outras que pelo Verão se realizam à sombra de uma igreja ou capela, que não tenha cantares ao desafio. De resto, é no Minho, sobretudo no Alto Minho, que esta tradição tem as suas mais fortes raízes e porventura onde proliferam os mais consagrados artistas da arte do improviso.

Origens:
Embora de origens difusas, os estudiosos da música consideram que as raízes dos cantares ao desafio remontam à civilização grega, nomeadamente às disputas poéticas de pastores a que o poeta Teócrito  (310 a.C.-250 a.C) lhes deus destaque nas sua obras.
Obviamente que o estilo ou conceito de cantigas baseadas no improviso, em monólogo ou em disputa com outro cantador, mesmo que com diferentes ritmos e estruturas melódicas, pode encontrar-se em muitos outros países e culturas, nomeadamente no Brasil onde ali os cantadores são conhecidos como repentistas. Também o acompanhamento instrumental é diversificado, desde um simples instrumento de percussão, como a pandeireta ou pandeiro (no Brasil), até um bombo ou, como em Portugal, com a popular concertina. Aqui também com instrumentos de corda, como a viola braguesa, sendo que a gênese tradicional é apenas com a concertina.

A concertina:
Dizem que as suas mais remotas origens, com o som produzido por palhetas fixas, estão referenciadas à China e ao longo dos tempos foram evoluindo para diferentes formatos e sonoridades. A sua forma mais ou menos moderna foi desenvolvida na Alemanha, país onde está implantada a Hohner, porventura a mais consagrada marca de harmónicas de boca, concertinas e  acordeões.
Em rigor, o instrumento a que em Portugal chamamos de concertina não é uma concertina, já que esta, embora com a mesma estrutura de fole e botões nas extremidades, refere-se, todavia, a um formato hexagonal, accionado pelas mãos e braços e sem elementos de suporte ao tronco. A "nossa" concertina tecnicamente falando é um acordeão diatónico de três filas, cada uma correspondente a uma escala ou afinação, normalmente em DO, FA e SOL. Mas há com outras afinações. Uma das grandes diferenças entre este instrumento e o também popular acordeão é o facto da concertina ser de teclas bi-sonoras (uma nota ao abrir o fole e uma outra diferente nota ao fechar o fole) enquanto que o acordeão, de teclas ou de botões, ser uni-sonoro (a mesma nota ao abrir ou fechar o fole). No acordeão é possível tocar qualquer música ao passo que na concertina há algumas limitações nomeadamente no modo menor porque lhe faltam notas de meio tom (sustenidos ou bemóis).
Pese estas diferenças fundamentais, o instrumento de excelência no acompanhamento das cantigas ao desafio popularizou-se com o nome de concertina e assim, mesmo que erradamente, continuará a ser. No Brasil, tanto concertina como o acordeão são conhecidos por sanfona ou mesmo por gaita.

Os cantares:
Os cantares ou cantigas ao desafio, ou desgarradas, conforme são tradição no nosso país, e sobretudo no Minho, traduzem-se fundamentalmente em cantar de improviso, de forma alternada com outro cantador, em jeito de disputa, desgarrada, despique ou função, à volta de um tema mais ou menos escolhido ou mesmo de tema livre.
Nas origens, diz-se que os desafios eram essencialmente de temática mais ou menos religiosa, por exemplo Deus e o Diabo, o Bem e o Mal, os pecados mortais, os sacramentos, ou mesmo a vida de determinados santos, como S. Pedro e S.to António. Estes temas sacros foram aos poucos sendo abandonados porque nas festas o povo exigia assuntos mais alegres, menos sérios, e tornaram-se então recorrentes as cantigas à volta de temas como os binómios Vinho e Água, Lavrador e Carpinteiro (ou outras profissões), a Noite e o Dia, a Madeira e o Ferro, etc. Nestes casos, os cantadores começam por uma série de quadras de saudação aos presentes no terreiro e a si próprios e depois vão lançando o desafio à marcação da função ou do tema e depois cada um defendo a sua parte, lá vão esgrimindo razões de enaltecimento ou depreciação de qualidades e ou defeitos.
Apesar dos temas mais clássicos, o que normalmente desperta a atenção dos apreciadores são os de carácter brejeiro e sobretudo de cariz sexual, nomeadamente quando o desafio é feito entre homem e mulher. Todavia, mesmo com a  carga de brejeirice e de cariz sexual, é importante que tudo o que se cante seja sempre de forma indirecta e que o segundo sentido e interpretação das palavras fique à consideração e imaginação dos ouvintes. Ou seja, que a suposta maldade ou malandrice seja subjectiva e não objectiva. Quando a coisa descamba para a ordinarice muito directa (e por vezes sim) pode ganhar em entusiasmo mas perde seguramente na pureza da arte e da tradição.

Alguns afamados cantadores, como o Augusto Canário, Delfim dos Arcos (de Valdevez) e sua filha Carminda, consideram que os cantadores têm que ter alguma psicologia e saber dosear o nível de malandrice ou brejeirice de acordo com a plateia que têm à sua frente ou mesmo com o local de actuação. Têm que perceber se quem está a assistir está a gostar ou a torcer o nariz às piadas, se há muitos idosos, se crianças, etc. Por outro lado é totalmente diferente o cantar defronte de uma capela ou igreja e num contexto de festa religiosa ou, pelo contrário, numa festa puramente popular ou dentro de um salão ou tasca. Por conseguinte, importará sempre aos bons cantadores este "apalpar" do pulso à plateia de modo a que percebam se estão a alegrar e a divertir ou antes a enfadar, aborrecer e a provocar.

Cantadores e cantadoras:
Não sendo regra, os cantadores e cantadeiras para além do seu nome próprio são também conhecidos com o nome da terra de que são naturais.
Nas origens e até há poucos anos, os cantadores eram essencialmente homens e os respectivos despiques ou desafios eram entre eles.
Inicialmente cantava-se por divertimento e a troco de uns copos de vinho mas mais modernamente os artistas começaram a ser pagos pelas suas participações e já há quem viva apenas dessa actividade artística.

Aos poucos começaram a aparecer as cantadeiras e com elas a abrir-se a oportunidade para a brejeirice de cariz sexual que obviamente não se proporcionava com cantigas entre homens.
Ainda não são muitas, comparativamente com os homens, mas já há boas cantadeiras, como as conhecidas Adília de Arouca, Irene de Gaia, Irene de Vila do Conde, Celeste de Ponte da Barca, Rosa Maria de Ponte da Barca, Carminda de Arcos (Valdevez). Também tem sido dado destaque a Natividade Vieira (Naty) de Póvoa de Lanhoso, a que se referem como a Raínha das Cantadeiras, tendo sido popularizada pelas frequentes desgarradas com o cantador Augusto Canário de Viana do Castelo, de cujo grupo fez parte até 2012, altura em que se juntou ao grupo do cantador Jorge Loureiro, de Barcelos.
Há algum tempo, em declarações públicas, a cantadora Carminda referiu que uma mulher que ande nestas coisas das cantigas ao desafio e que alinhe num estilo brejeiro, tem que ser solteira ou independente de homem ou então, sendo casada, que o marido tenha total confiança, pois caso seja ciumento e possessivo as coisas podem complicar em certas "brincadeiras" mais apimentadas.

Pela parte dos cantadores, na zona do Minho há muitos e bons de que pessoalmente destaco os mestres Delfim dos Arcos (Valdevez), Cunha de Vila Verde (um dos melhores), Manel Peta de Vila Verde, o Leiras (Manuel Araújo) do Soajo, Marinho de Ponte da Barca, Carvalho de Cucana de Cabeceiras de Basto, Domingos Soalheira, de Guimarães, Loureiro de Barcelos, Peixoto de Braga, Jorge Loureiro de Barcelos, Zé Cachadinha de Ponte de Lima, Pedro Cachadinha de Ponte de Lima, Nelo Aguiar de Barcelos, Borguinha de Braga, Augusto Canário de Viana (um dos bons e mais conhecidos) e seu colega de grupo o Miranda de Viana. Quim Barreiros, de Vila Praia de Âncora teve fama de bom cantador, nos seus primeiros tempos, mas há muito que enveredou por um registo bem diferente, mais trauliteiro e raramente entre em desgarradas de improviso limitando-se a dar umas amostras nos seus espectáculos.

Estilos:
Por tradição, como já se disse, os cantares ao desafio são acompanhados por concertina, que pode ser tocada pelos próprios cantadores ou por outros tocadores. A base musical assenta no ritmo de rusga e da popular modinha da "Cana Verde". Há quem adopte um ritmo e estilo de fado mas esse não é de todo tradicional.
O ritmo deve ser lento, não demasiado, mas o adequado para dar tempo ao cantador para preparar a quadra de resposta. Um ritmo demasiado acelerado para além de não ajudar à compreensão de algumas palavras ditas em modo popular, dificultará certamente a preparação e com isso eventuais falhas ou tempos mortos.

Por outro lado, a tradição é que cada cantador cante uma quadra (quatro versos) de forma alternada, mas há quem cante duas ou mais ou mesmo sextilhas (seis versos). Há ainda um estilo mais livre um pouco ao sabor da inspiração e dos caminhos de cada despique, com rimas emparelhadas e nem sempre cruzadas.
Um bom cantador é obviamente aquele que tem uma boa capacidade de improviso e riqueza de rimas, boa voz e colocação da mesma e consegue dar sequência contextual à quadra cantada pelo parceiro. Simultaneamente, porque lhe confere mais categoria e independência, bom tocador de concertina, embora não obrigatório.

Ao contrário do que se possa pensar, um bom cantador ao desafio não decora quadras até porque nunca saberá o rumo dado pelo cantador com quem estará em despique. Quando muito pode ter alguns versos mais ou menos recorrentes( "muletas") com as quais se socorre em determinadas situações e que encaixam como enquadramento ou introdução. Terá, sim, que ter uma técnica muito própria no improviso de modo a dar sequência natural ao despique ou desafio e à qualidade e diversidade de rimas. Ajudará muito ter um bom vocabulário e praticar rimas, mesmo que sozinho.

Em todo o caso, para a popularidade dos cantadores e cantadeiras contam muito o perfil e o carisma. Cantadores há que têm fraca ou vulgar voz, até mesmo mal colocada ou muito berrada, mas que despertam esse carisma, como são exemplos o Zé Cachadinha e sobrinho Pedro Cachadinha (foto acima), por sua vez filho e neto do já falecido velho Cachadinha, ambos de Ponte de Lima. Na verdade, não se pode falar de cantares e cantadores ao desafio sem falar dos Cachadinhas de Ponte de Lima. Neste caso, do Zé e do Pedro,  maior a fama decorrente da tradição do velho Cachadinha do que propriamente a sua qualidade intrínseca. Mas é apenas uma opinião pessoal. De resto o Zé Cachadinha tem o estilo de cantar apenas uma simples quadra e não gosta que o parceiro da desgarrada cante mais do que isso. E em muitas das suas funções chama a atenção ao parceiro(a).

- Ouve cá o cantador,
Vê se cantas direitinho,
Se cantares mais c´ uma quadra
Ficas aí a cantar sozinho.

Possível resposta provocatória, porque desafiante da regra imposta e simultaneamente "ofensiva":

- Vou cantar uma, ou mesmo duas,
Conforme me apetecer,
Depois de ouvir uma das tuas,
É que vou cá arresolver.

Se me deixas a cantar sozinho,
É porque te meto medo,
Mas isso passa se no teu cuzinho,
Me deixares espetar um dedo.

Mas para isso, ó cantador,
Não precisas meter cunha,
Porque o dedo que eu falo,
É um dedo que não tem unha.

Dito tudo isto, e não foi pouco, e porque não podemos gostar do que não compreendemos, seria bom que aos poucos déssemos o justo valor a esta tradição das cantigas ao desafio, que em muito traduzem o saber, a cultura e maneira de ser do nosso povo e que traz à memória muitas características dos tempos dos nossos avós.

24/08/2018

Amigos Inseparáveis - The Odd Couple - Série TV



Pelo ano de 1973 a RTP exibia a série norte-americana "Amigos Inseparáveis", do original "The Odd Couple" exibida pela cadeia ABC entre 24 de Setembro de 1970 e 7 de Março de 1975. Foram produzidos 114 episódios ao longo das 5 temporadas.

A série retrata, num registo de comédia, a vida de dois homens adultos (Felix Ungelm, interpretado por Tony Randall e Oscar Madison, interpretado por Jack Klugman), ambos divorciados, e que por um acaso acabam por se conhecer e assim passam a viver juntos, partilhando um apartamento em Nova Iorque. Todavia, com estilos e personalidades bem diferentes, mesmo opostas, as peripécias à volta das contradições acabam invariavelmente por ser o sumo e o fio condutor de todos os episódios.
Félix, fotógrafo, é o tipo certinho, muito organizado, amigo das limpezas e da cozinha. O outro, Óscar, jornalista desportivo, é o oposto, desleixado e impulsivo.

Em Portugal, baseada em "The Odd Couple", nos anos 90 a RTP produziu a série "Sozinhos e Casa", com  Henrique Viana e Miguel Guilherme, numa realização de Fernando Ávila, com 52 episódios, exibidos originalmente entre 15 de Setembro de 1993 e 25 de Setembro de 1994. Esta adaptação portuguesa absorveu todos os aspectos essenciais da série original, nomeadamente os nomes dos personagens, profissões, estilos e personalidades.

21/08/2018

La Pandilla




Durante quase toda a década de 1970, era êxito no panorama musical espanhol, latino-americano e mesmo no português, a banda "La Pandilla", um grupo juvenil formado em Espanha em 1970, com um estilo pop ligeiro muito na senda da também popular banda espanhola "Los Ángeles".

A banda foi formada por Pepa Aguirre, dela fazendo parte sua sobrinha Mari Blanca Ruiz Martínez de Aguirre, sua filha Mari Nieves e seu filho Santiago (Santi) e ainda dois outros rapazes, Juan Carlos e Francisco Javier Martínez Navarro. Em 1974, já numa fase em que o timbre das vozes se começavam a alterar em virtude do avanço na idade dos adolescentes, o grupo foi renovado e em substituição de alguns deles entraram para o grupo os gémeos Ruben e Javi Lopez e Gabriel (Gaby) Jimenez. O grupo continuou a gravar discos até 1977 e a envolver-se em momentos televisivos. 

O seu primeiro trabalho discográfico, "Villancilos", teve lançamento em 1970. Dos muitos êxitos, alguns lançados em Portugal pela Movieplay, de maior sucesso e que ficou pelos "ouvidos", talvez o tema "Amarillo", do EP homónimo de 1972 e "Zoo Loco" de 1973, este que foi dos discos mais vendidos.

Pela web há bastante informação sobre o grupo, nomeadamente na sua página de fãs.

Em Portugal as bandas infanto-juvenis nunca foram muitas, pelo menos com grande projecção e gravações, mas ainda assim é possível fazer referência aos Mini Pop, formados um pouco antes que os "La Pandilla" e posteriormente os "Queijinhos Frescos" de Ana Faria, os "Onda Choc", ainda pela mão de Ana Faria e os Ministars.

Formações de "La Pandilla:

Maria Blanca Ruiz Martinez (de 1970 a 1977)
Francisco Javier Martinez (de 1970 a 1977)
Juan Carlos Martinez (de 1970 a 1974)
Nieves Martinez (de 1970 a 1974)
Santi Martinez (de 1970 a 1974)
Gabriel Jiménez González (de 1974 a 1977)
Francisco Javier López (de 1974 a 1977)
Rúben López (de 1974 a 1977)

16/08/2018

Escrever é Lutar





Pelo ano de 1974, logo após a revolução do 25 de Abril, a RTP iniciou  o programa "Escrever é Lutar", que se traduzia numa série de entrevistas concedidas por figuras públicas do momento ligadas à literatura, no contexto do rescaldo da revolução aos jornalistas José Carlos Vasconcelos e Fernando Assis Pacheco.

José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, José Tengarrinha, Maria Velho da Costa, Jorge Reis, Baptista Bastos, Manuel da Fonseca, António José Saraiva, José Augusto Seabra e Manuel Alegre, entre muitos outros, foram algumas das figuras entrevistadas num estilo muito próprio desses tempos em que a nossa  televisão era a preto-e-branco.

A rubrica decorreu entre os anos de 1974 a 1976. Cada entrevista tinha uma duração aproximada de 25 minutos. No arquivo da RTP onde felizmente é possível aceder, ver e ouvir muitas dessas entrevistas, estão disponíveis 26 episódios, sendo que não conseguimos apurar se tal número corresponde ao total de entrevistas produzidas se apenas uma parte.

Seja como for, o material disponível é muito abrangente e, em larga medida, todos os episódios são hoje importantes documentos  e testemunhos desse período muito específico, pela visão e pensamento de figuras ligadas à literatura.

14/08/2018

José Mário Branco - Permanente revolução


Aprecie-se, ou não, José Mário Branco é um dos nomes incontornáveis da cultura e música portuguesas e desta da designada popular e de intervenção. Desde um activo na igreja católica até militante do Partido Comunista, este carismático cantautor (cantor e compositor), com a curiosidade de ser filho do professor António Branco, profícuo editor de manuais da escola primária por esses tempos dos anos 60 e 70, é de facto uma figura indelével da nossa sociedade.

Relembramos a sua figura nesta capa da revista Tele Semana de 12 de Julho de 1974, por isso logo a seguir ao 25 de Abril, em que os cantores de intervenção, atá então reprimidos e alguns deles exilados, soltaram toda a sua energia e marcaram musicalmente todo esse período pós-revolucionário.
JMB, regressou do exílio em França e na entrevista então dada à emblemática revista de assuntos televisivos e do espectáculo, disse que "...juntei-me com alguns camaradas, para tentarmos fazer um trabalho colectivo de carácter revolucionário e na base de princípios ideológicos anti-reformistas".  Para além do que isso possa querer dizer, e na altura este tipo de chavões eram moda, José Mário Branco manifestava-se, então, contra os espectáculos no "Canto Livre" no palco do S. Luís, mesmo que com nomes como Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Carlos Paredes, Manuel Freire, Sérgio Godinho e muitos outros, porque, considerava "...são espectáculos que se dirigem a um público priveligiado. Não é para esse público que os os cantores populares devem dirigir os seus esforços, mas sim para junto das massas trabalhadores (...)...para os trabalhadores em greve, nas fábricas, nos bairros e nas agremiações populares, como é o meu caso..."

Certo é que José Mário Branco, um pouco no lado marginal da nossa realidade musical, foi prosseguindo a sua carreira com carisma e nesse aspecto manteve-se fiel ao seu estilo, compondo e cantando como se vivêssemos numa permanente revolução.

05/07/2018

Ciências Geográfico-Naturais - 1ª e 2ª Classe - Manual Escolar


Hoje trago à memória o manual escolar "Ciências Geográfico-Naturais - 1ª e 2ª Classe. É de autoria do Professor Pedro Carvalho, com edição da Porto Editora.
O manual tem as dimensões de 18 x 24 cm e 48 páginas profusamente ilustradas a cores.

O livro não tem qualquer referência à data e uma primeira análise ao estilo é de que será da década de 70.  Todavia, uma das ilustrações, a única com assinatura irreconhecível, tem o que parece ser uma referência à data de 82. Poderá assim ser do início dos anos 80? Talvez.

Este Professor Pedro Carvalho é autor de muitos manuais do ensino primário, desde pelo menos dos anos 50 a finais dos anos 70, e sobretudo das disciplinas de História e Ciências Geográfico e Naturais. Infelizmente, porque as referências na Web são quase nulas, pouco ou nada conseguimos apurar sobre este profícuo autor. Talvez alguém entre os nossos leitores possa acrescentar algo mais.

Este manual tem uma referência à colaboração de Mário Ramiro. Também sobre este nada conseguimos apurar ficando sem saber se essa colaboração se reporta à componente do texto ou da ilustração. Quanto às ilustrações também não existe referência aos autores, de resto o que na época era quase a regra, sendo que facilmente se distinguem vários estilos, pelo que será de supor que intervieram vários artistas.

Seja como for, é um belo manual, recomendado como "lições de observação", por isso muito ilustrado, abordando muitos assuntos relacionados ao tema da geografia natural e humana. 

Curiosamente são raros os manuais de ciências destinados às primeiras duas classes do Ensino Primário, até porque, principalmente na primeira delas, os alunos aprendem a ler e obviamente que apenas na segunda classe terão já a aptidão de leitura  e mesmo assim com alguma dificuldade. Daí que este tipo de manuais eram em regra destinados apenas à terceira classe e sobretudo à quarta.

Ficam, abaixo, algumas das quase meia centena de páginas.








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