O Clarim - Jornal da Cruzada e das crianças de Portugal

jornal o clarim santa nostalgia 02


"O Clarim" foi fundado em 1946 pelo Pe. Paulo Durão Alves e designava-se como Jornal da Cruzada Eucarística e das Crianças de Portugal. O seu primeiro número foi impresso em Janeiro de 1947.
Ainda se publica, pertencendo na actualidade ao Apostolado da Oração, ligado à Companhia de Jesus, e que integra a Rede Mundial de Oração do Papa.
São quatro páginas apresentando doutrina e exemplos edificantes que ajudam os leitores a crescer na fé e na confiança em Deus.

Durante muitos anos teve como director o saudoso o P. Fernando Leite e a administração e redacção ficam localizadas em Braga.

Recordo-me deste jornalinho, desde criança da catequese. Na minha aldeia, aos Domingos de tarde, logo pelas 14:00 horas, iniciavam as aulas de catequese, para ambas as quatro classes. Terminavam uma hora depois e logo de seguida tinha início a reza do Terço, orientada pelo já falecido pároco local (foi pároco da aldeia durante 60 anos).
No final do Terço, uma vez por mês, o nosso Padre lá anunciava aos mais pequenitos: - O jornal "O Clarim" está na sacristia!"
Este anúncio despoletava uma algazarra e um amontoado de mãozitas estandidas enquanto o Padre distribuía o jornal. Habitualmente aconselhava para que o jornal fosse partilhado com outros meninos depois de lido. Claro que poucos seguiam este conselho.

A minha memória relativamente ao jornalinho O Clarim, remonta a esses tempos de criança. 
O jornal tem um formato aproximado de uma folha A4 (ligeiramente superior), dobrada a meio, por isso com 4 páginas. Apresentava sempre casos e exemplos de fé e devoção para com a Sagrada Eucaristia. Tinha sempre uma secção onde eram narrados pequenos sacrifícios realizados pelos pequenos leitores, coisas muito simples mas tão difíceis para as crianças. Extraio alguns exemplos: Fiz o sacrifício de dar uma esmola a um pobrezinho; Fiz o sacrifício de lavar a louça; Fiz o sacrifício de estar atenta na Missa; Fiz o sacrifício de não ver televisão para ajudar a minha mãe.

Uma rubrica tão do agrado da criançada era o PARA RIR, com algumas anedotas e adivinhas, cuja solução era apresentada na edição seguinte.
Cada pequeno artigo era sempre acompanhado de uma simples gravura.
O jornal O Clarim denomina-se de jornal da Cruzada e das crianças de Portugal, sendo por isso dirigido de modo especial aos petizes.
O movimento da Cruzada, a exemplo de muitas paróquias de Portugal, também existiu na minha aldeia nos anos 40 a 70. É possível que na sua origem, na sua génese estejam reminiscências da lenda da Cruzada das Crianças.

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De todo o modo, sabemos que este movimento da Cruzada teve origem concreta no apelo do Papa Pio X, que, em plena I Guerra Mundial (1914/1919), pediu que as crianças, adolescentes e jovens de todo o mundo se organizassem numa Cruzada Universal, com o objectivo primeiro de rezar pela paz no mundo. Este movimento parece ter chegado a Portugal no início dos anos 20. Foi um sucesso e nos anos 30 o movimento agrupava quase três milhões de jovens, principalmente crianças.

A Cruzada Eucarística das Crianças era formada por crianças em idade da escola primária, rapazes e raparigas, que vestiam roupas brancas. Sobre a roupa, cruzando o tronco, como na figura acima, era colocada uma faixa igualmente branca, estampada com a tradicional Cruz de Cristo, a vermelho. As meninas usavam ainda uma espécie de lenço, preso à cabeça por uma cinta.
Este movimento era coordenado por mulheres, ligadas normalmente à Catequese, a quem se dava o nome de zeladoras.

Pessoalmente nunca estive integrado nesse movimento, mas recordo perfeitamente a sua existência onde participavam alguns meus colegas. Entre outras actividades, o grupo da Cruzada tinha que acompanhar os funerais, participando no respectivo cortejo fúnebre. Naquela época, e ainda durante vários anos, os funerais eram realizados em cortejo pedestre, desdo a casa do falecido até à igreja matriz. Em cada cerimónia, a cada criança da Cruzada era oferecida uma espécie de senha de presença, que mais tarde daria direito a algumas prendas ou lugar gratuito numa das excursões realizadas anualmente peló pároco.
Em meados dos anos 70, o movimento acabou por se extinguir de forma natural, entre outros motivos, devido à cada vez menor indisponibilidade das crianças em participarem com regularidade nos diversos eventos e cerimónias religiosas.
É, pois, com saudade e nostalgia que recordo o jornalinho O Clarim e a sua intrínseca ligação ao meu tempo de criança.


Capa do primeiro número do jornal "O Clarim", datada de Janeiro de 1947


Capa do último número do jornal "O Clarim". Outubro 2022

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