Calabote - O árbitro inocente ou inocêncio

Hoje, data do seu nascimento, trazemos à memória o árbitro de futebol Inocêncio Calabote. Falado e invocado não tanto por quem foi seu contemporâneo e o viu a actuar mas sobretudo por gente de gerações seguintes, em rigor por quem nunca o viu mais gordo ou mais magro, mas tão somente porque a reboque de velhas rivalidades e novas discussões entre os nossos maiores clubes de futebol, nomeadamente o Benfica e o F.C. do Porto. 

Assim, sempre que há casos de arbitragens mais ou menos controversos, esses dois clubes, seja por se sentirem prejudicados ou porque acusados pelo adversário de favorecimento, tanto ao nível de dirigentes como de adeptos, degladiam-se ferozmente, tantas vezes de forma irracional. E nessa discussão o há muito desaparecido árbitro Calabote com frequência lá vem à baila para se esgrimir com mais ou menos fundamentos os casos de favorecimento  de certos clubes pelos homens do apito.

Inocêncio João Teixeira Calabote nasceu em 29 de Março de 1917, na freguesia de Santo Antão, Évora, filho de José Calabote e Caridade Amélia. Faleceu em 2 de Janeiro de 1999, com 81 anos. Como jogador de futebol, informação que não consegui confirmar, terá jogado no Lusitano de Évora e chegou a  árbitro da Associação de Futebol de Évora tendo chegado à categoria de internacional. 

Para a história ficou conhecido sobretudo pela sua actuação no jogo no Estádio da Luz entre Sport Lisboa e Benfica e Grupo Desportivo da CUF, em 22 de Março de 1959, partida que os lisboetas venceram por 7-1 sendo que foi insuficiente face ao resultado do jogo que na mesma altura decorria em Torres Vedras com a equipa local, o Torreense, a defrontar o F.C. do Porto, tendo este jogo terminado com a vitória dos portistas por 0-3 o que lhes garantiu a vitória no campeonato nacional dessa época por diferencial de golos. 

Quanto a Calabote, acabou por ser irradiado devido a questões técnicas relacionadas a esse jogo, não tanto das decisões, incluindo o ter assinalado 3 penalties para o Benfica, mas por ter mentido no relatório ao afirmar que o jogo tinha começado a horas e que tinha tido apenas 2 minutos de compensação, o que não correspondia à verdade já que o início do jogo terá iniciado mais tarde 6 minutos após a hora marcada e o tempo de descontos foram 4 minutos (uma brincadeira comparados com os 10 minutos que agora é habitual em alguns jogos). Todavia, importa dizer que quando Calabote foi afastado da arbitragem, numa carreira de 22 anos,  tinha já mais de 40 de idade o que, convenhamos, estava já na hora de se retirar.

Do que temos lido sobre o assunto, ou o "caso", e há muita coisa escrita, e atentos às versões de portistas e benfiquistas, há nitidamente diferentes leituras e interpretações, como convém. Por isso aos portistas importa realçar e extrapolar os casos que ocorreram na Luz (que de resto nem foram decisivos) e omitirem os que aconteceram em Torres Vedras (esses sim, decisivos), e vice-versa. 

De facto, os portistas, nas considerações sobre esse assunto, nunca abordam ou explicam os "casos" ocorridos no jogo com o Torreense. Já os benfiquistas procuram esgrimir que a história está mal contada ou extrapolada e que em rigor desse jogo nada conseguiram para além de que imprensa da época não encontrou assim tantas anormalidades, para além do atraso do início do jogo que deveria ter coincidido com o jogo de Torres Vedras. De resto, 3 penalties num jogo? Em jogos mais recentes têm sido várias as equipas a beneficiarem de 3 penalties na mesma partida e sem tanto espanto. Também por 4 minutos de descontos? Em jogos recentes, mesmo envolvendo Benfica e Porto, chegam a ser 10 ou mais.

Em resumo, e não disfarçamos uma costela benfiquista, era só o que faltava, mas numa análise tão imparcial quanto possível, parece-nos que em rigor existiram anomalias e "casos" estranhos não só nesses dois jogos finais como mesmo em jornadas anteriores, com resultados muito "esquisitos". Veja-se que a 3 jornadas do fim do campeonato, quando se perspectivava que a coisa poderia vir a ser decidida por diferença de golos, o F.C. do Porto, então bastante atrás nesse requisito, recebeu e venceu o Beleneneses por 7-0, com a particularidade de que a equipa de Belém foi, apenas, a terceira classificada, por isso uma das melhores dessa época e que só nesse jogo sofreu quase 1/3 dos 27 golos que consentiu em todas as 26 jornadas da competição. Ou seja, no mínimo deu para desconfiar de que já havia certas coisas a prepararem-se, tanto mais que, poucas jornadas antes, o Belenenses havia protestado o jogo que perdeu com o Benfica, tendo por isso e a partir daí ficado azedado nas relações. Mesmo no jogo anterior, o Benfica perdeu em Alvalade frente ao Sporting e acabou o jogo com 9 jogadores o que estraga a tese de que estaria a ser "encaminhado" para o título.

Mesmo voltando aos famosos dois jogos da última jornada (26.ª), o F.C. do Porto venceu o Torreense por 3-0 sendo que a 2 minutos do fim estava apenas 1-0 e o terceiro golo que acabou por ditar a conquista do campeonato foi apontado a 20 segundos do apito do árbitro e numa altura em que Torreense já estava a jogar apenas com nove jogadores e com dez a partir dos 20 minutos da segunda parte. Aqui, o árbitro Francisco Guiomar bem que poderia ser também ele um "Calabote". Mas a história não lhe deu tanta fama, desde logo porque os incidentes desse jogo não foram nem têm sido tão discutidos.

Já no jogo da Luz, dos três penalties apontados a favor do Benfica, a imprensa da época considerou que dois deles foram bem assinalados e um com dúvidas, mas em contraponto terá ficado mesmo por marcar a favor dos encarnados um descarado, coisa que até terá sido reconhecido pelo treinador da CUF no final da partida. 

Ou seja, se Calabote estava assim "inclinado" e instruído para beneficiar o Benfica, como querem fazer crer as hostes portistas, de modo a conseguir a tão milagrosa diferença de golos, desempenhou mal o seu papel pois em quase dez minutos de jogo finais não arranjou qualquer "solução" e até se esqueceu de assinalar um penaltie então considerado como evidente, que poderia ter feito a diferença. Certo é que o F.C. do Porto por via do resultado em Torres Vedras sagrou-se campeão da época 1958/1959 com 1 golo de diferença entre marcados e sofridos (81-22 (59) e 78-20 (58), respectivamente). Caso para se dizer que Calabote e por arrasto o Benfica, ficaram com a (má) fama mas sem o proveito. 

Este "caso" terà à época durado apenas alguns dias, arrefecendo logo após os acontecimentos e durante praticamente 20 anos ninguém se lembrou da figura de Calabote. Mas a coisa foi ressuscitada quando o Benfica começou a contestar os favores da arbitragem ao FC Porto no campeonato de 1977/78, que o clube azul e branco venceu após um longo jejum, e o treinador portista, José Maria Pedroto, replicando, provocava na imprensa: "- O que vocês queriam era o Calabote!". Por isso, o Calabote lá foi então ressuscitado (sendo que nessa altura ainda vivinho da silva) e sempre que importa ao caso das rivalidades.

Seja como for, discutir estas coisas, tanto mais na perspectiva de dois clubes fortemente rivais, em que nem sempre a lucidez e imparcialidade são qualidades, bem pelo contrário, este "caso" do Calabote ficou na nossa memória colectiva e há-de continuar a ser periodicamente chamado à actualidade sempre que der jeito.

Inocente ou culpado, Inocêncio Calabote ficou ligado para a história do nosso futebol. Realidade, mito ou lenda, há-de continuar por aí a ser invocado porque o futebol não sabe gerar valores positivos mas antes rivalidades por vezes, quase sempre, doentias e irracionais. Ademais, os casos, mais ou menos escandalosos sempre foram uma parte intrínseca do futebol e no nosso campeonato e nela o Benfica e Porto não são nem nunca foram inocentes. Com mais ou menos decoro, sempre procuraram virar o sistema a seu favor. Ora uns, ora outros. Por isso ficam mal estas discussões de virgens ofendidas a travarem-se de razões e contabilizar prejuízos ou benefícios. E andamos nisto há quase um século. Calabotes, Calheiros, Martins dos Santos, Augustos Duartes, Lucílios, apreciadores de quinhentinhos, viagens ao Brasil e taças de frutas, e tantos que tais, etc, etc,  foi o que nunca faltou ao nosso futebol e outros tantos continuam a andar por aí. Ora para lá, ora para cá e todos se queixam.

Inocêncio Calabote, que já não apita há quase 70 anos e faleceu há mais de 20, bem que merecia que o deixassem em paz! De resto, quase todos nós que ainda falamos nele, nunca o conhecemos e até pode ter sido um árbitro medíocre, como tantos na actualidade, mas provavelmente um excelente ser humano. Por isso, que descanse em paz.

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